A Garganta da Serpente
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Vento
(Ana Sampaio)

Era sexta-feira à tarde quando começou a ventar e ela sentiu medo.

Primeiro, vieram lufadas fracas, que balançaram as copas das árvores e encheram o fim de tarde belo-horizontino de um farfalhar que parecia chuva. Depois, foi aumentando.

Soprou forte e lambeu do chão as folhas secas de julho, rodopiou-as no ar, atirou-as novamente ao chão. A moça não entendia porque esse vento a fazia pensar no Diabo. Mas imaginava-o varrendo as ruas com seu sopro de maldade, dobrando esquinas, uivando nos telhados dos sobrados antigos da Floresta, assombrando as ruas desertas de Santa Tereza, levando a passear as almas inquietas do Bonfim. Com o vento, veio um céu carregado, cinza metálico cor de tristeza. Uma chuva fina caiu, esfriando a noite. Nas ruas, era tudo silêncio, fora o som de galhos e folhas secas e papel amassado que o vento arrastava.

No sábado, ninguém saiu. Nem a moça, que preferiu ficar em casa, olhando o vento da janela. Olhava e imaginava o Diabo lá fora, espreitando, esperando, perambulando trôpego pelos becos e soprando, soprando, envolvendo a cidade com seu hálito frio de desgraça e desolação. Arrepios lhe subiam pelo corpo, e ela fechava, bem fechadas, as janelas e cerrava as cortinas. Nunca soube explicar que medo era esse de vento, do vento sobrenatural de julho. Mas havia sido sempre assim, desde sua infância em Minas

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