A Garganta da Serpente
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Fim de semana na praia

(Adhemar Molon)

O casal de meia idade, meio esgotado dos seus labores diários, reuniu a família para combinar um fim de semana na praia. Iriam o casal, seus dois filhos já adultos, um deles amasiado e já com duas crianças. Juvenal e Adalgisa eram os de meia idade. Seus filhos, Bartolomeu e Cesário. Maricota, amásia de Bartolomeu, uma mulher miudinha, mais parecia ter nascido de um espirro de qualquer coisa. Os filhos de Maricota e Bartolomeu, Setembrina com cinco anos e Lojiamara com quatro.

Bartolomeu, querendo colaborar com os pais, escolheu a praia de Peruíbe, bem distante da Capital paulista. Tratou logo de alugar uma casa e o fez por telefone. Assim, os felizes viajantes, sete ao todo, iniciaram os preparativos. Juntaram maiôs, sungas e biquínis, alguns pacotes de biscoitos, uma melancia bem grande, uma caixa de cerveja outra de refrigerante, algumas fatias de presunto e alguns pãezinhos franceses. Esqueceram, porém, do frango assado com farofa. Graças a Deus !

Num sábado, bem cedinho, puseram-se a caminho. Socaram tudo no porta-malas do carro e lá se foi toda a família rumo ao litoral paulista. Ainda bem que ninguém pensou em levar sogras, cachorros e papagaios!...

Era um carro zero, cor vermelha, muito bonito. Porém, o peso, quase fazia o chassis encostar no chão. Bartolomeu, com seu pé de chumbo, imprimia o máximo de velocidade, provocando a irritação de seu adorado pai. Chegado ao pedágio, havia uma tremenda fila ! Passado o pedágio, mais uma espera de algumas horas. Como havia muita neblina, tiveram que esperar a vez para serem comboiados e com batedores à frente, para se chegar à descida da serra. O calor era intenso provocando ainda mais irritação. Mesmo com os vidros do automóvel abertos, o suor escorria...

Na descida da serra, quase ao seu final, todos se queixavam de surdez, devido à grande diferença na pressão atmosférica...

Quando tudo parecia estar indo bem, chegaram em Guarujá, fim daquele caminho ! Mas que diabos! Estavam viajando a mais de seis horas e não se chegava em Peruíbe ! Bartolomeu entrara por uma pista errada. Pelo visto, chegaria segunda feira sem que se chegasse àquela bendita praia! A solução seria voltar ou atravessar um pedaço do mar por uma balsa para se encurtar caminho ! Optou-se pelo uso da balsa...

Juvenal, irritado, falava o tempo todo na cabeça de seu filho, culpando-o pela sua incompetência. Bartolomeu ouvia todo aquele xingamento caladinho, como se não fosse nada com ele. Adalgisa procurava por panos quentes com afirmações de que enganos acontecem, de que todos deveriam acalmar-se para se completar o passeio em melhor sossego.

Desembarcados da balsa, noutro município praiano, Bartolomeu não conseguia se localizar. Não encontrava o rumo para o destino planejado com tanta antecedência, e, para piorar as coisas, o turrão não queria parar para pedir informações. Mas, ao passar por um quartel da Polícia Rodoviária, Juvenal, viajando ao lado daquele perdido motorista, pediu-lhe que parasse para solicitar informações. Ele ignorou ! Juvenal então grita :

- Pare essa merda ! Pare aqui mesmo !

Bartolomeu, assustado com os berros, parou... Não protestava. Não abria a boca pra nada. Já havia tomado uma cartela de aspirina tentando melhorar sua enorme dor de cabeça causada por tantas reclamações de seu amado pai...

Seguindo orientação do policial, o caminho foi encontrado finalmente. Roda que roda, já quase escurecendo, chegam àquela amaldiçoada praia. Até que enfim estavam em Peruíbe !... Alguns minutos mais de procura e conseguiram chegar até à rua onde se localizava a dita casa alugada por telefone. Era uma rua comprida com lombadas a cada cinqüenta metros, cujas lombadas mais pareciam montanhas ! Em cada uma delas, dado à sua altura e ao excesso de peso , o fundo do carro raspava parecendo que um pedaço dele acabaria por ficar por ali mesmo. À cada raspada Juvenal blasfemava. Xingava Deus e todos os santos ! Amaldiçoava a prefeitura, o prefeito, os vereadores e o povo local que absurdamente permitiam tantos obstáculos naquela maldita rua . Chegaram à casa. Já havia anoitecido. Até que enfim poderiam descansar um pouco ainda que não planejaram tal viagem para descansar e sim para um pouco de lazer...Para espairecer...

Juvenal não se cansava de maldizer Bartolomeu com críticas sobre críticas, dizendo-lhe que caso tivessem escolhido as praias de Copacabana no Estado do Rio de Janeiro, teriam chegado muito antes! Que até mesmo ir às praias dos Estados Unidos não demoraria tanto !

Descarregados os trens trazidos, decidiram procurar um bom restaurante onde pudessem matar a fome que era muita. Já um pouco tarde, não encontraram um bom lugar para o jantar. Apenas porções e petiscos frios e com aparência não agradável aos olhos. Assim sendo, não se arriscaram a sentir-lhes os paladares. Retornaram à casa para o pernoite. O jeito foi comer melancia, enchendo o estômago daquela água suculenta, misturando- a com alguns biscoitos, na esperança de que o dia seguinte seria melhor, mais feliz...

Amanheceu ! O domingo estava ensolarado ! Ótimo para se ir à praia... Para se ir até ela, novamente o fundo do automóvel foi se raspando pelas lombadas, montanhas erigidas no meio da rua pelos poderes públicos locais, parecendo propositadamente feitas para encher o saco dos motoristas e também dos donos de veículos. Mas, estando já naquele lugar, havia que se aproveitar ao menos um pouco das belas praias entendendo que o mar não tinha culpa daquelas desventuras...Somente o mar não tinha culpa...

Vestidos, todos, de sungas, biquínis e outras babaquices, chegaram à tão esperada praia. A praia de Peruíbe...

Todos se atiraram às águas. As crianças foram carregadas ao colo para se salgarem um pouco. Não queriam ! Choravam ! Berravam mesmo de tanto pavor daquela imensidão de mar !...

Depois de alguns pulos sobre as ondas, ainda meio famintos, saíram à procura de alguns petiscos ali mesmo nas barracas de praia. Numa delas estavam anunciados cachorros quentes com quatorze itens. Nem dava para entender como poderia caber tanta coisa dentro de um único pãozinho. Noutra se anunciava o mesmo produto alimentício com menos enchimentos. Bartolomeu, querendo acalmar seu pai e também agradá-lo para compensar seus enganos, propôs-se a pagar aqueles lanches. Afinal, não seria nenhum sacrifício. O dinheiro a ser gasto era do seu velho mesmo...

Assim, lá se foi ele. Parou numa das barracas onde o produto era mais barato e voltou todo feliz com um punhado de cachorros quentes, distribuindo-os, um para cada um... Os famintos se puseram a devorar aquela delícia, pois, sendo tanta a fome, comeriam até pão duro como se fosse caviar... Mas, Maricota, sua mulher, não comia. Segurava seu sanduíche à meia altura, mais ou menos à altura do queixo sem se atrever a morde-lo. Todos comiam... Menos ela..Estava atacada por um desejo incontido. Queria aquele cachorro quente com quatorze itens. Por onde fosse Bartolomeu, lá estava ela com lágrimas nos olhos a lhe pedir que trocasse seu lanche. Só lhe servia aquele com os malditos quatorze itens. Não dava para entender. Ela nem mesmo estava grávida para se dar ao luxo de tais desejos ! Demonstrara ali uma sua faceta até então desconhecida, revelando não ser uma pessoa normal. Continuava ridiculamente segurando seu sanduíche sempre na mesma posição, derramando em cântaros seu pranto... Juvenal, chateado com todos os percalços da viagem, quando pensava estar tudo na mais perfeita ordem, na plena paz de Deus, sentiu gana de afoga-la naquele mar, porém se conteve. Diante de tanta insistência daquela alucinada mulher pequenina, daquele espirro de qualquer coisa, para não dizer um palavrão, determinou a seu filho que fosse comprar o desgraçado cachorro quente com quatorze itens e se encontrasse, até com duzentos itens, para satisfazer o alucinado desejo daquela bendita esfomeada.

Maricota, bem mais velha que Bartolomeu, tinha sobre ele completo domínio. Não lhe permitia ter amizade com homens ou mulheres. Tinha que lhe ser exclusivo e ele fazia de tudo para satisfaze-la... Saiu então, o pobre coitado, à procura dos quatorze itens...Não encontrou...O estoque se extinguira! Desculpando-se de todas as maneiras tentara explicar à companheira em pranto que o maldito cachorro com quatorze itens não fora encontrado...Todos procuravam acalmar a louca. Tanto fizeram que conseguiram...

O tão planejado passeio que deveria durar alguns dias, foi interrompido. Todos concordaram que seria melhor regressar às suas casas e esquecer o infeliz acontecimento. Não completaram nem mesmo o domingo naquele lugar...

De praia, por um bom tempo, ninguém quis saber...Cachorro quente, ficaram muitos anos sem comer...Nem mesmo seu cheiro queriam mais sentir...Foi um final de semana inesquecível...

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