A Garganta da Serpente
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Ivone, a benevolente...
(Adhemar Molon)

O Edifício Fabrini, prédio muito antigo, localizado á Rua do Arouche, capital paulista, é um conjunto de dois edifícios de poucos pavimentos. Compõe-se dos números 174 e 176 e fica mais ou menos no meio dos dois únicos quarteirões que unem o Largo do Arouche à Praça da República. Lá pelos idos de 1980 era um prédio de aspecto nobre, naquela época já considerado antigo. Suas escadarias tinham degraus e meias paredes feitas de mármores de Carrara, importados da Itália. Seus elevadores, com portas de ferro sanfonadas, vieram da Inglaterra. Os pisos dos apartamentos eram taqueados em marfim e jacarandá, com desenhos em zigue-zagues, verdadeiras obras de artes, recordando tempos áureos de extrema abastança da época monárquica, mas já revelando certa decadência. Havia somente dois amplos apartamentos por andar. A maioria dos moradores era de conservadores, sendo alguns estrangeiros. No sexto andar do número 174, estava Raquel, russa judia, viúva. No quinto, Inês, mulher com dois filhos, aposentada pelo INSS. Defronte a ela residia Dolores, dona do apartamento, de excelente situação financeira, possuidora de apólices de seguro e de muitas ações, jóias caras, pinturas e mobiliário antigo de muito valor. Tinha oitenta anos e era viúva de um coronel do exército de quem recebia polpuda pensão. Apesar de tão bem de vida, sentia-se adoentada e muito solitária, pois não lhe restava nenhum parente que com ela se importasse, os quais a viviam pressionando para que aceitasse viver em uma casa de repouso, onde supunham, talvez, teria melhores atenções e uma ótima assistência. Na verdade, estavam mesmo interessados em se apropriar de todos os seus bens.

Abaixo, no quarto andar, morava Jardel e sua companheira Fernanda com seus dois filhos ainda bem pequeninos, Jesse e Alfredo. Eram proprietários daquele apartamento e tinham também uma cobertura no mesmo prédio que de tão linda parecia até um ambiente de contos de fada. No apartamento em frente ao seu, ao lado do elevador, residia Aparecida, de meia idade, sua mãe e de vez em quando por lá aparecia seu amante, um jovem de nome Armando. Aparecida tinha um enorme cão que ladrava dia e noite incomodando o sono e descanso de Jardel que vivia irritado com tantos latidos. Ainda mais porque a maldita costumava bater na própria mãe muito idosa que vivia berrando quando apanhava da filha. A idosa gritava, o cão ladrava, a coroa brigava constantemente com seu amante com idade para ser seu filho, transformando aquele andar do prédio num verdadeiro inferno.

No terceiro andar, propriedade de um rico fazendeiro da cidade do Espírito Santo do Pinhal mantido exclusivamente para seus encontros amorosos, havia infiltração de água do banheiro do andar de cima. O proprietário quando aparecia era para se queixar de tal infiltração que era impossível de ser reparada de vez que aquele apartamento só se abria para seus encontros com mulheres.

Na cobertura do prédio, num quartinho isolado, morava Ivone, como inquilina, por quem, Álvaro, o zelador, nutria imensa paixão, morrendo de desejos por ela. Álvaro, solteirão, morava com seu velhíssimo pai doente num outro apartamento da cobertura do prédio 176 do mesmo edifício Fabrini e a vivia pressionando para que fosse com ele morar ou se mudasse do prédio. Ivone não tinha nenhum interesse em Álvaro. Dava-lhe alguma atenção por questões de respeito por sua idade e também por saber dos seus poderes como zelador muito amigo da síndica, dona Esmeralda. Na verdade, ela mais o temia do que respeitava.

A Rua do Arouche é de curtíssima extensão. Tinha finas lojas de calçados, de roupas de grife, e a estação República do metrô. Liga o Largo do Arouche à Praça da República. No Largo do Arouche havia bem ao centro uma linda floricultura. Num dos seus lados, o restaurante "O Gato que Ri". Ladeando todo o Largo, estavam: o Cine Arouche, a Academia Paulista de Letras, o Hotel São Rafael, um bar conhecido como "bar dos artistas" freqüentado vez por outra pelo ator Falabela da rede Globo, o restaurante "O Leão do Arouche" e outros bares aconchegantes onde se podia tomar alguns aperitivos com muita calma e segurança. Nas proximidades, de um lado, na Rua Amaral Gurgel, havia o Teatro Paiol e um divertido sambão, ambos freqüentados por Joel e Fernanda. Noutra parte, na Rua Rego Freitas, algumas boates com apresentação de strip-tease, complementava muitas noitadas do mesmo casal. Também próximo se via o teatro Aliança Francesa com maravilhosos espetáculos. A poucos minutos de caminhada a pé podia-se chegar ao Teatro Hilton, no Hotel Hilton onde se podia deleitar com belas peças teatrais. Na Praça da República, o majestoso Colégio Caetano de Campos, construção muito antiga, encantava os apreciadores das belas artes arquitetônicas. Logo a seguir, podia-se ir à Biblioteca Mario de Andrade encostada nas avenidas São Luiz e Consolação. Ainda, restrito àquele ambiente, podia ser notado o Teatro Itália e os edifícios Copam, obra de verdadeira arte arquitetada pelo brilhante Oscar Niemeyer de reconhecida competência em todo mundo. Bem pertinho, no bairro Santa Cecília, fica a Santa Casa de Misericórdia e quase colado nela, nos finais de semana, funcionava a feira livre. Morar naquelas imediações era privilégio de poucos. Tudo por ali era tão lindo! Não era preciso se distanciar para se divertir. Estava tudo tão perto...

Era no apartamento oito do Edifício Fabrini, no número 174, que se encontrava o casal Jardel e Fernanda e seus dois filhos que tentavam recomeçar a vida, ambos deixando para trás remorsos, tragédias familiares, incompreensões, enfrentando o sistema e as falsas convenções sociais, buscavam pela felicidade, custasse o que custasse. Para chegar a condição de proprietários daquele imóvel muitos sacrifícios foram feitos e enfrentaram-se muitas dívidas, tendo para lá se mudado após cinco dias do nascimento do filho caçula, cheios de esperanças e de dívidas quase nas mesmas proporções. Na cobertura, um apêndice do apartamento oito, morava Ivone, jovem de quase trinta anos, morena, de longos cabelos castanhos que chegavam às suas nádegas, sem parentes ou bons amigos que se preocupassem com sua existência.

Os vendedores daquele apartamento, Frida, judia austríaca e Boris, um judeu polonês, casados em sua sinagoga, comprometeram-se a entregar o imóvel e seu apêndice desocupados o que obrigava Ivone a se mudar de imediato. Além das pressões do zelador, surgiu ainda essa exigência, justo quando a infeliz acabava de perder seu emprego no Bazar Treze. Recebeu, ela, então, a proposta para morar no apartamento dos compradores até que sua situação se resolvesse. Ela aceitou com muita alegria.

O tempo passa e Ivone fica sendo como pessoa da família, havendo considerações recíprocas. Chega o Natal e ela resolveu-se a fazer uma agradável surpresa. A campainha toca! Jesse entreabre a porta! Os dois meninos deparam-se com um Papai Noel! Ficam extremamente extasiados! Correm aos gritos chamando pelo pai para comunicar a novidade! Seu pai, sempre preocupado com a segurança da família, ordena-lhes que fechem a porta de imediato, advertindo que poderia ser um ladrão. Porém, os menininhos escancaram de vez a porta deixando entrar aquele estranho fantasiado que portava alguns pacotes. Tudo que os infantes vêm são suas fantasias realizadas. Ivone adentra em seguida explicando tratar-se de um contrato feito com aquele personagem para surpreender e dar alegria àquelas crianças que havia aceitado como se fossem saídas de suas entranhas. Foi um Natal muito feliz e jamais foi esquecido! Passa a data do nascimento do Senhor e a rotina retorna na vida de todos.

Dolores, a mulher idosa com seus oitenta anos, do apartamento nove, vivia intranqüila, atacada por uma doença e pelo sentimento de solidão. Sentia não mais poder continuar sem companhia no crepúsculo de sua existência. Daí, sabendo Ivone também carente de familiares e bons amigos, a convidou para ficar como sua acompanhante. Ela aceitou e se mudou a seguir.

Ivone, linda mulher, passou a sacrificar sua juventude, dedicando-se com paciência e carinho àquela anciã que lhe retribuía dando-lhe conforto, segurança e tranqüilidade. Ela, boa condutora de automóvel, conduzia a velha senhora aos lugares necessários, como nos consultórios médicos, bancos, mercados, enfim, para onde fosse preciso.

A velha Dolores que já havia feito testamento deixando todos seus bens para a instituição da Santa Casa de Misericórdia achou por bem modifica-lo, agraciando sua companheira, dando-lhe também procuração de plenos poderes o que tornou a jovem praticamente sua tutora de fato.

A bela Ivone passou a receber a pensão de Dolores e a dispor dela como julgasse conveniente. Fazia suas compras, trazia-lhe os medicamentos necessários, contratava-lhe cabeleireiros, manicures, pedicures, oferecendo-lhe tudo de que necessitasse. Adquiriu até um automóvel usado para conduzir a velha senhora.

Naquela condição de poder manobrar com as finanças de Dolores, parentes e amigos da jovem que se imaginava não existir, começaram a aparecer ocupando o mesmo espaço. Iniciou logo namoro com um manobrista de carros de um estacionamento da Rua Aurora que passou a freqüentar a casa da velha como se fosse o dono.

Dolores morre, embarca, viaja para o além! Tudo que possuía passara a pertencer à sua benevolente amiga que fica na condição de uma quase Cinderela dos contos de fada!

Durante algum tempo, a bela e escultural mulher, com seus longos cabelos descendo até às nádegas, parecendo-se com a Iara do nosso folclore, goza de alguma felicidade ao lado de seu príncipe encantado, o manobrista de seu estacionamento. Depois, sem que nem mesmo ela soubesse, cai em depressão, sentindo lhe faltar alguma coisa que não sabia identificar. Converteu-se à religião dos protestantes, aos denominados evangélicos ou crentes. Nada melhorou! Continuou deprimida! Sentindo falta de algo que não sabia o que!

Ivone era pobre! Ficou rica derrepente! Teve seu sonhado amor por um homem! Nada disso lhe bastou! Nada disso lhe serviu de complemento para uma vida feliz! Então, o que faltou a Ivone? Talvez nem ela saíba dar essa resposta...

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