Eros Volúpia
(Adriana Massina)
Alguém uma vez escreveu (Shakespeare? Anna Cristina César?) que
trepar é humano e chupar é divino. É isso mesmo! Aqui em
casa, quando acontece (coisa boa assim não pode acontecer todo dia, né
mesmo?) o céu toma conta do quarto e os dois, eu e meu marido, não
sabemos qual é o mais feliz, mais sedento, maio aquinhoado. E pensar
que levamos dez anos de casamento para, descobrir essa coisa tão simples
e inofensiva, instigante e esfuziante, espetacular e maravilhosa! Felação
e cunilíngua, palavras tão antigas e tão hoje e tão
amanhã!
E pensar que levamos tanto tempo para transformá?las em vida bem vivida
e não apenas mal sonhada.... Onde foi que vimos a concretização
delas, inicialmente? No desejo reprimido do convencionalismo, no filme erótico
do videocassete ou em nós mesmos, como se fossemos um casal indígena
que não cansa de louvar, adorar e amar a nudez erótica, tão
simples o inofensiva, instigante e esfuziante, espetacular e maravilhosa? Quando
vimos estávamos fazendo, primeiramente aos poucos , aos beijos a abraços
, e depois, ah voragem da a sofreguidão!, ah concupiscência do
malabarismo de trepar nas paredes e árvores mentais!, ah transcendência
anímico?física, a gritantemente doce paixão dos sentidos!,
ah libido desatada a fluir da medula à flor da pele e vice?versa!, e
toma lá pênis a púbis e o vai?e?vem, ele a procurar aquela
pecinha do relógio que faz detonar a bomba das flores e dos ardores!
eu a chupar e lamber o que de repente não é mais o chamado membro
viril, mas sim o fetiche de todo feitiço encantador do êxtase vital.
Foi assim que eu e ele aprendemos a aproveitar os mínimos detalhes das
noitadas arrebatadoras. Quando a personagem de Woody Allen ensina a amiga a
bela arte da felação usando uma baita de uma banana caturra, ah,
não é por me gabar não, mas eu já sabia muito mais
que engolir maciamente, dos lábios à garganta, revirando internamente,
com todas as rosas e sedas da língua mais palatável deste mundo.
Depois, quando víamos os filmes eróticos, ele sempre observava
que nenhuma daquelas atrizes escolhidas a dedo sabia fazer tão bem o
que eu fazia tão espontaneamente. Não é por me gabar não,
mas nenhuma delas gozava enquanto simplesmente chupava... E ele queria saber
como isso era possível, se eu não estaria simplesmente fingindo
como um poeta qualquer de Fernando Pessoa. Ora, ora, eu respondia, esta é
uma técnica minha, autodidática, que não conto a ninguém,
pois nem lei contar como é. Só sei que com meu marido é
fácil e bacana: ele segura o ímpeto uma, duas, três, quatro,
cinco, até seis horas, enquanto eu só vou somando os orgasmos
sucessivos de um a três, de quatro a seis, ah teve noite de eu perder
a conta, teve noite de eu atingir dezesseis orgasmos, seguidamente!, dezesseis,
acredite se quiser. Cada vez que eu atingia o clímax, ele dava um tempo
para que eu pudesse respirar um pouco e depois recomeçar o jogo do Eros
Voluptuoso e Frenético. Ele se contém, sabe esperar, sabendo que
não consegue repetir um orgasmo e por isso só goza quando já
estou exausta, isto é, muitas horas depois de começar. E sempre
deixa para orgasmar no coito vaginal porque, segundo diz, o pênis lá
no seu habitat natural fica ainda mais solto e incontido e quando vê já
está subindo nas paredes.
Meus orgasmos felaciosos são maravilhosos: variados múltiplos,
incansáveis. Mesmo as nossas preliminares duram horas e horas. Começamos
com a felação ou a cunilíngua (quê palavras feias
para atos tão bonitos!), devagar e aos poucos, cada um caprichando deliberadamente
para levar o outro ao paroxismo do prazer mais alucinante. Ele sabe das particularidades
de minhas zonas erógenas e vai despetalando cada uma, de cima para baixo
e de baixo para cima, no verso a no anverso do poema que na opinião dele
eu me transformo. Nem é preciso dizer, quem ler imaginará. Na
seqüência partimos para o tal de sessenta e nove, que é muito
mais que isso, que é sessenta a nova mil vezes sessenta e nove. Ah, não
agüento tanta bolinação, tanta massagem, tanta sugação
a deslizamento. Já pensaram até neste ponto quantos orgasmos assinalei?
Ele gosta de deitar sobre o relvado macio da região pubiana, a testa
e a nuca pressionando a constelação de pêlos, lábios,
clitóris, todas aquelas pecinhas de relógio, como ele diz. Ele
adora ficar com os grandes o pequenos lábios lá dentro da boca
dele, enquanto chove lá fora ou os carros passam na rua e os insetos
de luz faíscam na escuridão da distância. Ele beija e lambe
e chupa, quase come de tão guloso. E eu gozando! Ah, se a vida fosse
só assim, já imaginaram quê beleza?! Mas ela requer outras
atividades, entre as quais as agressivas (ativas a passivas) - e neste contexto
a licença poética da sexualidade do prazer é uma pausa
balsâmica, um reconstituinte moral e físico.
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