| Amilton |
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Acontece Nunca Acontecer
(Amilton)
"
, infelizmente não tinha namorado e mesmo
porque tivesse não ia
adiantar nada porque só conseguia coisas a custo de muito sacrifício,
era
do signo de Capricórnio e os desse signo têm de lutar o dobro para
vencer."
Lygia Fagundes Telles, "Pomba enamorada ou Uma história de amor",
(frag.)
Acontece juro que acontece só não sei dizer se a todos mas comigo
funciona como regra implacável sempre não acontecendo e tornando
a não acontecer o tempo todo desde a época de menininha na escola
quando nunca me deixavam sentar na frente nem apagar o quadro ou carregar as
coisas da professora e depois já mocinha no ginásio nunca aconteceu
eu namorar os grã-finos alinhados só conseguindo depois de muita
luta os pobretões feios sujos e piolhentos que me examinavam de cima
a baixo como se estivessem prestando um grande favor em me comer e olhem que
eu não era assim tão muquirana apenas um pouco magra e destrambelhada
com ombros meio caídos de seios murchos e pernas finas separadas com
pouco traseiro fazendo os rapazes reclamarem por não terem onde agarrar
e até debochavam mas pelo menos eu tentava ser limpinha simpática
e prestativa com todos eles como poucas nesta vidinha cruel e pode muito bem
ter sido esse o motivo de acontecer bem na época de decidir se cortava
os pulsos se tomava Tatuzinho ou me atirava pela janela do segundo andar foi
que conheci um alguém meio pra trás assim como eu e apesar dele
não ser capricorniano e nos darmos mais ou menos legal dividindo carências
mútuas aconteceu depois de um ano desse namoro mal resolvido e sem acasalamento
nós nos casarmos de papel passado mais por dó um do outro do que
qualquer outra coisa mas também por sermos no fundo tão parecidos
a ponto de nos odiarmos demais por isso e por aquilo que de tão ruim
que era desconfiava não ser bem sexo já que acontecia eu acho
sem o tal de gozo que dizem ser muito importante e fundamental nesse tipo de
união e pretenso relacionamento de merda mas uma coisa que aliás
penso que não me aconteceria tampouco com um outro qualquer e até
lembro de certa vez quando aconteceu de uma cliente esquecer no salão
uma dessas revistas chiques e caras que dão conselhos sem que peçam
pra mulheres assim do meu jeito e feitio e que detalhava com absolutos pormenores
sexo anal e oral coisa que eu não faria imagine nem morta por nada neste
mundo ou ainda aquela coisa que me parece se não me engano diziam ser
orgasmo clitoriano espasmódico que nunca entendi muito bem o que fosse
e dum tal ponto chamado 'g' que até então nunca havia ouvido falar
mas de lá para cá procuro com afinco em mim por debaixo de cada
dobrinha todos os dias e nada mas aconteceu ainda de lá no fim da página
eu ler que como último recurso para alcançar a bendita felicidade
tudo isso dava pra fingir a modo de não dar vexame ou passar por incompetente
e fria a fim de transmitir pro coitadinho aquela sensação de ter
cumprido meia missão mas acontece que eu nunca soube fingir o que nunca
sequer senti nem de longe e não tinha idéia de como poderia fazer
e foi aí então que tentei imitar o que via nos filmes pornográficos
que alugava nos dias de folga lá do salão e então me punha
a berrar o mais alto que podia como uma maluca aproveitando o embalo da dor
terrível que sempre sentia naquelas horas e sempre tive vergonha de contar
e o máximo que consegui com meu escândalo foi acordar todo o pessoal
lá do bloco que xingava e gritava palavrões a torto e a direito
enquanto meu homem espantado não entendia nada e me chamava de louca
varrida cruz credo e só aí então eu me dava por conta que
tinha feito tudo errado pra variar mas acontece que ele também não
conseguia sentir nada que valesse a pena pois tenho dúvidas ainda se
ejaculação precoce que dizem ser aquela coisa de acabar justo
na fase que na revista chamam de preliminares ou algo parecido possa ser considerado
algum tipo de gozo pra homem que se preste só sei que me melava toda
imagina só que nojo e não nos ajudava em nada apesar de tudo mas
com o tempo comecei a desconfiar que fosse por causa da tal fimose que me falava
lhe doer barbaridade e seguido lhe provocava fracasso instantâneo mas
confesso que comigo também acontecia umas coisas estranhas e secas muito
doloridas dando uma vontade maluca de desistir de tudo aquilo fazendo a gente
parar de sofrer pra nada eu acho inclusive volta e meia pensava que poderíamos
muito bem ter discutido aquele assunto na época da lua de mel lá
mesmo no barro duro só que a gente tinha e ainda tem uma baita vergonha
um do outro e da desgraça de si próprio preferindo continuar infeliz
desse jeito pra sempre a ter que se encarar olho no olho e falar no tal de coito
participativo como recomendam na revista mas voltando ao que interessa porque
eu acabo me perdendo neste linguajar difícil eu só sei que por
fim já não adiantava mais nada todos aqueles truques que cheguei
a ter que inventar nos primeiros tempos onde eu de olhos fechados imaginava
estar ali com um daqueles amores proibidos impossíveis não acontecidos
e bem dotados do tempo de colégio que de tão proibidos e impossíveis
não adiantava nem seguir tentando imaginar por que não aconteceria
nada de bom comigo nem mesmo em sonho mas acontece que sou meio otimista e não
desisto fácil de ser feliz com certeza.
(Pelotas, abril de 2007)
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