A Garganta da Serpente
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Arlindo Gonçalves Marrão Junior saiba mais sobre o autor

Eva

(Arlindo Gonçalves Marrão Junior)

"... um dia, cabrões imundos, todos vocês serão levados diante do Deus-pai e responderão pelo odioso crime de foderem suas mulheres como bestas-feras."
Plínio Marcos.

A boneca que repousa sobre a cama tem os lábios pintados de batom vermelho. Quando vermelho era tudo o que ela podia ver naquelas paredes ao seu redor, tudo era paz.

Às vezes, ela ouvia a mãe conversando com o pai do lado de fora das paredes... Eu queria tanto que fosse menina, amor. Queria mesmo. Se for menina, vai se chamar Eva. Esse era o nome da minha avó, foi o nome da primeira mulher e será um bom nome para a nossa primeira filha.

Os lábios da boneca estão pintados de vermelho, tal como o pai ensinara. Os lábios de Eva ainda apresentavam resquícios de batom vermelho, mas não com a intensidade dos da boneca.

Eva chegou à sua casa, próxima à avenida do Estado, naquela madrugada de domingo; ainda sentia as dores, a tosse, o gosto horrível na boca e a impressão de ouvir vozes dentro de sua cabeça.

Atribuía as vozes que ouvia às lembranças das conversas que tivera com o médico no posto de atendimento... A senhora não pode se entregar dessa forma, é fácil conseguir remédios hoje em dia. Não deixe o desânimo baixar sua resistência, é nessas horas que o vírus ataca mais.

Eva começou a desmanchar o penteado e a trocar-se quando ouviu o choro vindo do quarto. Achava estranho que o choro pudesse se misturar às vozes dentro de sua cabeça, dando a entender que as duas poderiam conversar, mesmo que a menina fosse tão nova.

Num momento, acreditava que as vozes ecoando, internamente, eram as das amigas que a tinham aconselhado há alguns meses... Amiga, é melhor tirar a criança. Ela vai nascer com o bichinho, não tem a menor chance de ser diferente. Melhor abortar, a gente conhece um jeito fácil de fazer isso...

O choro da filha, as vozes, ou as duas coisas, pareciam aumentar a sensação de gosto amargo que sentia na boca.

Naquela madrugada de domingo, Eva tentava refazer alguns curativos nas costas doloridas e feridas pela violência sofrida. Enquanto cuidava dos machucados, ouvia novamente as vozes... Vai sua puta, diz! Diz que qué apanhá. Fala, vagabunda, desembucha aí, ô vaca imunda. Admite, seu lixo, admite que só te pagamos porque você queria apanhá e que a gente te enchesse de porrada. Vai, diz que gostou, diz, diz, vai!

Durante o espancamento, os gritos dela soavam como os de um animal indo para um abate. Um dos rapazes agarrou os cabelos dela e disparou... Fala seu nome, puta, fala! Vou bater em você até o meu amigo ali, o meu chegado, se sentir satisfeito. E tem mais, ele só vai terminar de gozar quando ouvir seu nome. Éééé, seu nominho vai pro caderninho dele, tá? Tem um monte de nominho de putinha lá no caderninho dele, sabia? Todos os nomes das putas que a gente espancou.

A boneca sobre a cama... os lábios pintados de batom vermelho... da forma como o pai ensinara. Vermelho. A primeira cor que Eva viu na vida. Para ela, vermelho — diferentemente do que poderia parecer — era a cor da paz, representada por aquelas paredes que a cercavam dentro do útero da mãe.

Quando as paredes vermelhas ameaçaram expeli-la, gemidos da mãe... Eles vinham do lado de fora.

E as paredes vermelhas viraram rosas: o seio da mãe, o carinho do pai.

Eva ergueu a filha para a acalmar. Lembrava-se de quando era nova e erguia a boneca com o mesmo carinho. O pai falava afetuosamente... Essa boneca vai se parecer com você quando for mocinha, querida, passe o batom nela e veja como vai ficar bonitinha. Que nome você gostaria de dar para ela, meu bem?

O choro da menina cessou. Eva, então, experimentou uma sensação de alívio e uma calma prazerosa. Nessas horas, admitia como era delicioso ter a filha perto do corpo, sentir sua respiração e o calor dos pequenos braços. Se tivesse imaginado como tudo isso seria delicioso, talvez não tivesse um dia procurado por todas as drogas que tomara e parceiros que tivera ao longo da vida.

Eva recolocou a criança no berço, voltou para o guarda-roupa e começou a arrumar algo novo para vestir. Revirou a bolsa desfazendo-se do que achava desnecessário. Então, achou a notinha da loja de brinquedos onde tinha comprado uma outra boneca para a filha. Comprara aquele novo brinquedo com a mesma intenção que o pai tivera quando lhe deu a antiga boneca que hoje repousa sobre a cama... Deixa ver o que essa puta tem na bolsa. Ahhhh, olha só, uma bonequinha! Que lindinha! É prá filhinha, sua vagabunda? Tem filha, é? Tem filha, sua puta? É a filha da puta, então. Se tem filha, nem deve saber de que homem é, né? Só pariu e pronto! Vamos mijar na bonequinha da nossa putinha, ou melhor, na bonequinha da filha da nossa putinha.

E as paredes rosas viraram azuis. Sempre passeava com o pai e a mãe pelos parques e praças de Amparo, cidade onde moravam. Parques e praças, não podia imaginar, seriam os lugares em que trabalharia no futuro.

E as paredes azuis viraram marrons. Num dos dias de passeio pelo parque, o pai não se sentiu bem. Caiu, batendo a cabeça no chão. O dia em que o pai morreu... o início do fim da infância.

Eva estava quase pronta, já havia vestido uma outra roupa, penteado-se e preparava-se para sair. Voltara o gosto amargo na boca, mas dessa vez ela atribuiu isso ao fato de ter parado de tomar o remédio contra a AIDS.

E as paredes marrons viraram roxas. Ainda criança, o padrasto sempre a colocava no colo e dizia... Sei que eu nunca vou ser igual ao seu pai, mesmo assim, eu amo você como se fosse minha própria filha, Eva.

Já clareava. Eva preparava-se para sair. Olhou para o berço. Viu o lugar que tinha reservado para a boneca que comprara... vazio... Toma, sua puta. Leva a boneca mijada e gozada pra sua filha. Ahhh, falando nela, como é que a vaquinha se chama? Dá, dá mais um nome de mulher pro meu amigo ali. Dá, dá, dá mais um nome de mulher pro caderninho dele. Fala o nome da putinha da sua filha pra gente sabê, vai! Ahhhhh, putinha não, né? Ela é criancinha ainda, né mesmo?

Durante o espancamento, Eva tentava pegar a boneca. Um pé desceu, pesadamente, em suas costas. Tomba de rosto no chão... Leva, sua puta. Leva a boneca da filhinha. Leva e atira da janela, já que não qué falá o nome da vaca. Um nome de mulher a menos no caderno, fazê o quê, né? Mas leva o brinquedinho e não se esquece de que é melhor jogá fora o que não tem futuro.

E as paredes continuaram roxas. O padrasto sempre pegava Eva no colo e a acariciava... Como sua pele é macia, Eva! Vamos tomar um pouco de sol juntos, tá?

Eva já estava pronta para sair. Carregaria fortemente sua filha.

E as paredes roxas ficaram cinzas. O padrasto, mantendo Eva no colo, dizia... Esta sua bonequinha com o batonzinho... você pode ser mais bonitinha do que ela, sabia?

Eva conferiu o bilhete necessário à viagem, pegou a chave e dirigiu-se para a saída. Tentava memorizar o caminho que deveria seguir. Lembrou mais uma vez do instante em que foi libertada pelos dois clientes sádicos... Vai puta, anda pelo viaduto e se joga de lá. Leva a boneca da filhinha, ou melhor, leva a própria filhinha e pula as duas.

No dia do espancamento, Eva caminhou com muita dor até alcançar o viaduto.

E as paredes cinzas escureceram aos poucos. O padrasto sussurrava ao ouvido dela... Põe o batonzinho pra mim, Eva... fica igual à bonequinha que teu pai te deu.

E as paredes cinzas ficaram negras. No exato momento em que o padrasto colocou a mão embaixo de sua saia, Eva soube que a infância tinha acabado...

Na madrugada do seu massacre, Eva chegou até o Minhocão, indicado pelos clientes que a torturaram. A imagem da imensa construção parecia oprimi-la. Mesmo assim, subiu e arremessou a boneca mijada e violentada. Jogou fora o que não tinha futuro...

E as paredes permaneceram negras: a fuga de casa para São Paulo. E as paredes negras distorceram-se: as drogas. E as paredes negras emitiram murmúrios: a prostituição. E as paredes negras proferiram lamúrias: a contaminação. E as paredes negras trincaram: a gravidez. E as paredes negras ruíram: um novo nome de mulher... Aline.

Naquela manhã fria de domingo, Eva dirigia-se à estação Parque dom Pedro do metrô. Chegaria rapidamente ao Minhocão. Levava Aline bem agasalhada e aconchegada ao corpo para aquecê-la um pouco mais, atitude que parecia inútil diante o rigor daquele início de inverno.

A mente de Eva era tomada por inúmeros pensamentos desconexos e conflitantes... não se esquece de que é melhor jogar fora o que não tem futuro.

Notou as poucas pessoas na rua, fato que, mesmo na confusão mental em que se encontrava, agradou-lhe bastante.

Eva e Aline seguiram caminho. Um caminho permeado de dor, machucados e decepções. Quanta saudade dos tempos em que tudo que via eram calmas paredes vermelhas. Que saudade de passar o batom vermelho nos lábios da boneca ou andar com os pais pelos parques e praças de Amparo.

Tudo desapareceu durante a caminhada em direção ao Minhocão. Belíssimas imagens rosas e azuis desmancharam-se. Eram registros de um passado em que seu nome de mulher era muito mais valorizado do que os tristes fatos recentes.

Eva e Aline foram-se. Apenas uma delas retornaria. Apenas uma... para a dor e solidão...

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