A Garganta da Serpente
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A noite das morenas
(Aryane Braun)

Era noite.

A mulher de pernas longas sentada num alto banquinho, abaixou-se para arrumar as tiras da sandália, na beirada do bar.

A taverna do Leme era um lugarzinho abafado mas contagiante, nunca vazio. Sempre que podia ia à taverna tomar uma cervejinha com meus amigos. Naquela noite tinha sido o primeiro a chegar porque saíra antes do trabalho. Quando cheguei, sentei ao lado de uma morena no balcão. Habituado ao lugar, sabia que nunca a vira por ali. Bela, nem humana parecia, de tão bela. Longos cabelos. Um vestido simples e decotado, muito feminina. Abaixou-se para arrumar as tiras da sandália deixando suas costas à mostra para mim. Deu uma olhada no relógio de pulso impaciente.

- Esperando o namorado?

- Não, um amigo do trabalho.

Somente agora eu reparara que ela tinha um rosto bem talhado, uma boca muito chamativa. Uma boca que pedia para ser beijada.

- E você? Esperando alguém?

- Sim, alguns amigos... Quer uma bebida?

Ela pediu ao bar man uma cuba bem gelada; eu, um capuccino.

- Você não bebe?

- Não estou com vontade hoje. Sabe quando você acorda sem vontade de nada?

Na verdade decidi não beber pra não fazer feio na frente dela...

- Uhum... - Ela sorveu a cuba pelo canudo, onde ficaram as marquinhas do batom - Eu por exemplo... Estou aqui a trabalho e no entanto não sinto vontade de trabalhar .

Suspirou fundo, preenchendo o decote mais ainda. Olhou para fora do bar. Na rua pessoas iam e vinham, nenhum sinal do amigo dela. A noite era quente; o bar,mais ainda. A morena mudara de expressão, de calma fora para maquiavélica. Terrivelmente sedutora. Eu pensava em parar de importuná-la, antes que cometesse alguma besteira.

Perguntei o que sentia vontade de fazer então. Ela apoiou o rosto na mão, sorriu de lado enquanto brincava com o suor do copo, respondeu-me que queria estar com alguém que lhe desse atenção. Seria carência ( ou puro Maquiavel aplicado )?

- Mas não estou dando atenção?

- Está, mas logo virão seus amigos ...

Tentando ser atencioso convidei-a para nos sentarmos numa mesa. Confesso que senti calafrios quando seus olhos fitaram-me e sem palavra alguma puxou-me pelo braço em direção da tal mesa. Sentou-se próxima, esqueceu do amigo. Conversou , éramos amigos de longa data...A mão gelada no meu braço, seus olhos, o rosto próximo, a boca molhada de cuba... Que martírio era aquilo! Eu não sabia mais se aguardava meus amigos ou um beijo dela. Eu continuava a falar, mas não lembro o quê. Minhas pernas estavam prontas para correr dali, até que ela calou-se. Não consegui desfazer o silêncio. Os olhos dela novamente. Meu santo me abandonou. Silêncio bagunçado, ela encostou de leve seus beiços nos meus... Saí do meu corpo. Só sei que o beijo daquela morena deixa os meu neurônios em coma até hoje, quando penso nisso...

Ela levantou-se, no seu silêncio que tudo dizia, acho que tinha ido até o banheiro, não estava em condições de saber nada. Nesse espaço de tempo meus camaradas chegaram. Quando ela voltou e deparou-se com a nossa mesa cheia de meus amigos, seus olhos arregalaram-se, a mãozinha no peito. A pobre caiu em cima de uma mesa mesmo, apagou.

- Ô Neves! Aquela ali não é a sua mulher? - disse alguém.

O Neves já estava longe quando a frase terminou. Levara a bela esposa para casa. Eu não sei o desfecho da história dela naquela noite. Meus colegas nunca souberam do ocorrido entre nós ( muito menos o Neves que trabalhava comigo ) e nem eu seus comentários sobre o desmaio, pois eu falava no celular.

Que noite! Pensava apenas em conversar com os amigos, esbarrei numa morena e terminei nos gordos braços de minha esposa. A roliça me chamou para um jantar romântico pelo celular. E foi só o que entendi minha morena falar em meio ao alvoroço que fizeram para ver a mulher do Neves estatelada... E ele suando como um porco desesperado.

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