A Garganta da Serpente
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Rodrigo Emanoel Fernandes é escritor, dramaturgo, ator, crítico, ensaísta, espeleólogo e eterno curioso. Nasceu em São Paulo, na distante tarde de 16 de Outubro de 1974, e atualmente mora em Londrina, Paraná, onde cursa graduação em Artes Cênicas pela Universidade Estadual de Londrina. Libriano com ascendente em Áries e lua em Escorpião, herdeiro de todas as bênçãos e maldições desses signos (embora não tenha o hábito de usar a Astrologia como desculpa por suas ações), sempre foi fascinado por histórias e suas infinitas formas de manifestação: literatura, teatro, cinema, quadrinhos, artes plásticas, do mais tradicional ao ápice da vanguarda, preferencialmente misturando tudo e saboreando os resultados. Atualmente é colaborador do site "Universo HQ" (www.universohq.com) onde assina reviews dos lançamentos de Quadrinhos, é membro do Grupo Performático "AcompanhiA", com o qual dirigiu o espetáculo "Leitura Performática de Obras de Carlos Drummond de Andrade", tem contos publicados no site "A Garganta da Serpente" e inúmeros projetos teatrais e literários em andamento.

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"Ao descer aquelas escadas toscas, sentindo a madeira ranger sob os meus pés, não pude deixar de sentir uma sensação de opressão quase física. A sensação não me era de todo estranha: era similar ao mau estar que já me dominara tantas vezes antes em festas, não só na Cantina da 10 como em qualquer outro lugar. A diferença agora estava na inten-sidade. Ao adentrar aquele porão (ou seria cripta?!), tão secreto quanto solitário, escuro e fétido, fui dominado por uma angústia terrível, como se o peso de um mundo fosse despejado sobre minhas costas. Caminhei por aquele porão, tão amplo que seria necessário o tempo de uma vida para explora-lo por inteiro e, quase como por instinto, meus passos me guiaram até ele. Na penumbra das tênues lamparinas fixas nas paredes e colunas de pedra, ele era quase invisível. Jazia, sentado na poeira, encolhido e imóvel, abraçando as pernas contra o corpo numa posição fetal. Não tinha traços físicos ou características que o individualizassem: seu corpo era liso e amorfo, como um boneco de massa, sem feições, sem textura, sem cor, tão transparente que eu podia enxergar através dele. Não estava vivo, mas tampouco estava morto: tais conceitos humanos não se aplicavam a ele. Estava inanimado agora. Era até difícil acreditar que, a poucas horas atrás, na festa logo acima desse porão tétrico, essa mesma figura não só possuía forma, cor e vida, como também emanava um encanto quase irresistível. Dançava, sorria, amava, cada gesto seu carregado de intensa vivacidade, tão belo que seria capaz de seduzir a quem quer que desejasse, como de fato o fez. Agora que todos haviam partido, não era mais nada. Toda beleza, toda vida, se fora. Aproximei-me dele, fascinado pelo próprio fato de tal criatura existir. E ante minha presença, repentinamente tomou cor, tomou forma, começou a respirar. Ergueu a cabeça e sorriu pra mim. Seu rosto. era o meu rosto!"

("Solitário Entre Nós")


Rodrigo Emanoel Fernandes


Pois o poeta é como a mulher: precisa de dar à luz
(Leopold Sédar Senghor )

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