A Garganta da Serpente
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Luís Fernando Pinotti Silva é bacharel em Direito, pós-graduando em Direito Ambiental pela PUC-SP. Escreve não tem muito tempo. Aliás, quase nunca. Apesar disso possui contos publicados no Site de Literatura, na Usina das Palavras e teve seu "La Noche" eleito o melhor conto da primeira quinzena de agosto de Blocos On Line. Seus autores favoritos são Rubem Fonseca, Marçal Aquino, Paulo Leminski, Hilda Hilst, Elmore Leonard, Bret Easton Ellis, Dalton Trevisan e Pedro Juan Gutiérrez, dentre os outros que habitam os quatro cantos de seu quarto. Gosta da nova safra brasileira, como João Paulo Cuenca, Cardoso, Cecília Giannetti, Antonio Prata e Joca Reiners Terron. Além de seu amigo Marcel Nadale, o mais novo biógrafo de grandes cineastas. E acredita nos blogueiros sem espaço nas editoras.

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Eu sempre fui um fodido.

Sempre fui ridicularizado na escola por ser quieto demais. Depois, ridicularizado pelas mulheres por respeitá-las demais. Depois, ridicularizado no serviço público porque trabalhava demais.

Fadado ao fracasso, nada havia dado certo para mim.

Nada. Até o dia em que conheci o negro.

O negro me encarou a noite inteira naquele boteco de azulejos sujos e com um banheiro pichado. Eu, com minha porção de pastéis frios e uma Coca-Cola morna diante dos meus olhos, olhava pra ele e pensava: porra, não acredito, mais um querendo confusão comigo. Saí do trabalho com meu chefe redigindo um memorando para o departamento de recursos humanos pedindo desconto na minha folha de pagamento. Eu não tive culpa, moro com uma tia inválida e preciso receber sua aposentadoria. Naquele dia o meu salário de fome importava menos que minha dor na unha encravada. E agora o negro, sentado no balcão, pulseira de prata no pulso esquerdo, estrela de Davi dourada no peito à vista pelos dois botões abertos da camisa cor-de-rosa. Ele mal olhava para seu bauru, mal tocava no copo de cerveja à sua frente, fitando-me como se me conhecesse há anos. Eu tinha certeza de que nunca o tinha visto no bairro, apesar de que sua fisionomia me lembrava o Carl Weathers. "Apollo, O Doutrinador". Esbocei um sorriso, mas me lembrei de que a vida estava uma merda e isso freou qualquer manifestação de felicidade em meu rosto, mesmo que ela não durasse mais de dois segundos


Luís Fernando Pinotti Silva


O poeta pode alguém ser. O que não pode é tornar-se
(Marisa Raja Gabaglia )

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