A Garganta da Serpente
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JOSÉ ANTÓNIO de Freitas GONÇALVES, natural de S. Martinho, Funchal, 13.06.54, pertence aos órgãos diretivos da Associação Portuguesa de Escritores (APE) e é presidente da Associação de Escritores da Madeira (AEM), da qual foi co-fundador (1989). Desde muito jovem que publica textos na imprensa e tornou-se Jornalista profissional em 1971 (Jornal da Madeira), tendo sido co-fundador e dirigente da secção regional do Sindicato dos Jornalistas na Região e da Associação dos Jornalistas da Madeira. Preside também, desde 1991, a Associação dos Desportos da Madeira. Revelou-se em "O Poeta Faz-se aos Dez Anos", da Maria Alberta Meneres (que lhe dedicou um capítulo do seu livro), em 1973 (Assírio & Alvim). Dirigiu nos anos setenta a página literária "Poesia 2000" no "Jornal da Madeira e, em 1993 o "Suplemento Cultura", no "Notícias da Madeira". Fundou e dirige várias coleções literárias. Enquanto agente cultural organizou uma vasta diversidade de eventos, desde espetáculos musicais, recitais, conferências, Feiras do Livro, "Os Olhares Atlânticos" (um mês de cultura madeirense em Lisboa, Biblioteca Nacional, 1991, com exposições, debates, mostras de pintura, livreiras, musicais, etc.), exposições de poesia ilustrada, assim como ações de divulgação de obras e escritores em escolas e bibliotecas, municipais e da Fundação Calouste Gulbenkian. Desenvolveu diversa produção ensaística sobre obras e escritores nacionais e estrangeiros ao longo dos últimos trinta anos, além de assinar dezenas de letras para canções gravadas por artistas portugueses, folhetos e catálogos de artistas plásticos e de encartes em discos, assim como produziu, realizou e apresentou variado tipo de programas de rádio de índole cultural nas diferentes estações públicas e privadas da Madeira. Escreveu quase 20 livros (sem contar com as antologias). Faleceu em 29 de março de 2005.

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PORQUE NASCI

sou poeta porque nasci só no orvalho das manhãs
e descobri nas palavras que explorei no silêncio
a explicação das coisas a razão da brancura
a vontade inexplicável de estar aqui
onde caí com as mãos presas e os olhos vendados
o corpo negro e nu descoberto ao longo dos montes.
sou poeta. gritei-o longe com a força da minha voz
e as valas fecharam-se e deixaram-me passar.
mantos azuis ventos fortes mares estranhos
céus límpidos tomaram conta de mim. sou poeta.
nasci só, no orvalho das manhãs, protegido
por flores
por bombas, por maldições e o meu corpo é uma haste
ou harpa ou arma, pedaço de pão, fogo, fome ou lanterna
brinquedo rodando nas mãos de jugos. sou poeta.
dêem-me o vosso arado. deixai-me cultivar vossas terras
áridas, vossos desertos secos. deixai-me soçobrar
nos vossos barcos náufragos. deixai-me criar epitáfios
fogueiras, lendas. deixai-me com os vossos filhos vagando pelas
montanhas, pela lã das ovelhas. pelas
ventanias. deixai-me construir um ruído mudo de silêncio
uma voz calada, mais vibrante que esta branda fala
para dizer-vos um poema sou poeta nasci rosa
no orvalho transparente das manhãs.

(in "Vinte Textos Para Falar de Mim", Col. Cadernos Ilha, Nº. 1, 1988)


José António Gonçalves



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