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Welington Almeida Pinto
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Analfabetismo no Brasil
(Welington Almeida Pinto)

ALFABETIZAÇÃO: O BRASIL AINDA CONTINUA FORA DO TOM.:

Folheando uma velha "Época", de 30/06/2003, reli uma matéria sobre educação no Brasil que envolveu 13 mil crianças de 47 municípios brasileiros feita pela Fundação Carlos Chagas. O resultado não poderia ser pior. Revelou o fracasso da escola pública na alfabetização: 96% dos alunos ao terminar a primeira série do ensino fundamental são analfabetos; 54% não reconhecem sílabas; 42% entendem algumas palavras, mas eliminam letras ao escrever e 59% dos estudantes da quarta série do fundamental são incapazes de escrever um bilhete simples.

Confirmando que a crise no ensino brasileiro está longe de acabar, outra avaliação recente feita Unesco sobre o desenvolvimento da alfabetização em 41 países, o Brasil ficou com o 37% lugar, à frente apenas da Albânia, Indonésia, Macedônia e do Peru.

Quais os motivos que situam o Brasil entre os países mais atrasados? São muitos, é evidente. Nosso método de alfabetização é ineficaz? Para muitos especialistas, é. Está na UTI, precisa de uma intervenção cirúrgica urgente.

Tem mais: professores mal capacitados, baixos salários da categoria, escolas sem condições físicas para funcionar e a falta de bibliotecas. Portanto, o MEC precisa entender que a grande maioria dos Estados e das Prefeituras, sozinhos, não reúnem condições materiais nem operacionais para escapar da maldição que ronda a escola pública no Brasil, o desinteresse pelo ensino público de qualidade.

Essa é a realidade que produz um bando de analfabetos ao concluir a quarta série do ensino fundamental, cobrindo de vergonha a Nação. Mais grave ainda: compromete o futuro de milhares de adolescente e alimenta o maior contingente de analfabetos do Ocidente, emperrando o desenvolvimento nacional e, principalmente, o ensino nas universidades.

O poema "Pátria", de Olavo Bilac diz: "com fé e orgulho a terra em que nasceste/Criança! Não verá nenhum país como este!" O poeta estava coberto de razão: - não verá mesmo!... Em nenhuma região do globo.

MISTURANDO IDÉIAS E SONHOS.:

O pensador Silo Meireles, em um artigo no site do jornal "Gazeta do Paraná", 24/10/2003, defende o Fônico como o método adequado para erradicar o analfabetismo em nosso país e critica a metodologia atual: ...."esses burocratas do MEC" que copiaram dos espanhóis os Parâmetros Nacionais no governo Fernando Henrique Cardoso, dizem que a alfabetização fônica é mecanicista e não significativa.

Por isso, inadequada à política de ensino público brasileiro. Para completar, ele ainda culpa a nova Lei de Diretrizes e Bases, também inspirada nos espanhóis, que estabeleceu o sistema de ciclos e a promoção automática.

Em 13/04/2000, a comissão de educação do Senado norte-americano, após analisar mais de 100 mil trabalhos científicos, publicados depois de 1966 e 15 mil antes desse ano, sobre aprendizagem e alfabetização divulgou o relatório sobre o "de fonemas e sons de palavras em suporte à aprendizagem da leitura e ao método mais eficaz de ensinar a ler".

Para o NIH, "pela primeira vez, temos um roteiro baseado em evidências científicas sólidas sobre a melhor maneira de ensinar crianças a ler" e "a rigorosa revisão científica... identifica a melhor estratégia para alfabetizar". Concluiu pela "evidência sólida em favor da instrução fônica sistemática".

O relatório abrange as etapas do método, a compreensão dos sons da linguagem falada, da relação entre esta e a linguagem escrita. Além da fluência do vocabulário e a compreensão de textos. Se o método Fônico é bom, não seria hora de estudar a possibilidade de mudar nosso processo de alfabetização?

Países europeus que saíram do subdesenvolvimento, investiram pesado na educação. No Brasil temos que fazer o mesmo. Deixar o discurso de lado e partir para ações concretas. Se for o caso, criar novos orgãos para cuidar do assunto, mas que sejam departamentos fundados no sistema de mérito e administrados segundo critérios técnicos, isolados da tecnocracia arrogante que sobra no serviço público brasileiro. E mais: resistentes ao clientelismo, ao empreguismo e ao fisiologismo.

O HÁBITO DE LER.:

A volta sistemática dos jovens aos livros, em qualquer método, ajuda a alfabetizar. Nas escolas e fora dela. Cabe, principalmente às instituições educacionais brasileiras, públicas ou privadas, difundir a leitura entre seus alunos, mostrando à criança o valor e a função social da palavra escrita ou falada desde a infância. O estudante só tem a ganhar em um contato íntimo e organizado entre professores, estudantes e bons livros. Favorece cidadãos em formação a interpretar, decodificar e adquirir muita coisa importante para sua sobrevivência e prosperidade no futuro.

Em artigos anteriores sugerimos ao Comitê de Regulamentação da Lei do Livro, há um ano reunido, formas de garantir recursos para Bibliotecas públicas como criar a LOTERIA CULTURAL, com bilhetes da Loteria Federal lançados no dia do aniversário de grandes escritores brasileiros, como Guimarães Rosa, Monteiro Lobato, Jorge Amado e outros, que poderão emprestar nome e prestigio a favor de uma causa para gerar recursos a um Fundo Financeiro destinado à criação, reforma, manutenção e reposição livros nas Bibliotecas. Exemplo: PRÊMIO MACHADO DE ASSIS, no dia 21/06 (nascimento) ou 29/09 (encantamento).

Além disso, autorizar a extensão do SELO SOCIAL para despacho de livros pelos correios, nos moldes da Carta Social e a inclusão de um livro infantil na Cesta Básica do Trabalhador.

Numa entrevista com o escritor e professor Ronald Clever, 17/05/2003, no caderno "Pensar", suplemento do jornal "Estado de Minas", ele declara: "o brasileiro escreve bem, fala bem, como escreve e fala mal". A esperança reside na socialização do livro, na socialização da escrita. O brasileiro precisa ver o livro não como objeto de decoração, mas algo útil como a água, como o fogo, como o pão. É preciso comer livros. A fome zero do governo continuará no zero, se não colocar no programa a necessidade de ler e escrever.

Nem só de pão se vive. Escrever e falar bem depende de onde você vive. O que é escrever bem e falar bem num país onde mãe é palavrão e poeta é apelido? Para voar alto em um mundo cada vez mais globalizado, o Brasil precisa investir cada vez mais na formação de sua juventude. Não há outra saída. Lembrando uma mensagem de Jean Claude Obry: "talento é a competência para construir na realidade um sonho de vida em benefício de uma comunidade".

* Na Irlanda, em 1973, quando o país decidiu entrar para a União Européia, foi elaborado um pacto pela educação, destinando todo o dinheiro recebido dos países mais ricos do continente para o sistema educacional. Resultado: trinta anos mais tarde a Irlanda apresenta a maior renda per capita da Europa, e ocupa o 12º lugar entre as nações de melhor Índice de Desenvolvimento Humano (IDH).

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