A Garganta da Serpente
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Poesia: sentimento medido ou lapidado?

(Silvia Pina)

Se existe um vocábulo mais complexo que poesia eu duvido. Citemo-lo em qualquer lugar ou ocasião que ninguém se atreve a ficar calado sem emitir sequer uma simples e tímida opinião. Levando-se em conta a ampla abstração que o termo propõe é impossível fixá-lo a um sentido único e concreto, ainda que o dicionário nos apresente a palavra de uma maneira prática e objetiva para o nosso melhor entendimento. Apesar de, em geral, o significado estar ligado a área literária podemos dizer que a poesia pode estar presente até em um gesto sem palavras ou em um quadro, por exemplo. Mas eu não quero me deter às questões teóricas sobre a poesia, não hoje. Hoje gostaria de discorrer sobre o sentimento, as sensações a que poesia nos conduz.

Em uma conversa sobre o sentido poético e literário presente nos textos ouvi de um teórico que um poema para ser um poema não pode transbordar sentimento, ser meloso. Deve passar a emoção de uma maneira sutil e indireta. Até aí tudo bem, mas o que me chamou atenção foi o final dessa explanação. Segundo ele o poeta não pode jogar todo seu sentimento, deve se conter por que se um poema fizer alguém se derramar em lágrimas não é um bom poema. Isso me inquietou, até porque um dos poemas que tínhamos lido mexeu tanto comigo ao ponto de me dar um nó na garganta. Talvez eu seja muito emotiva.

Fiquei a pensar em como os grandes poetas jogavam no papel as palavras se contendo tanto, tendo que expor o mínimo possível a enxurrada de sentimentos que os invadiu e os fez escrever. É certo que um texto poético requer um burilamento das palavras, tem que ter ritmo e ser agradável tanto para ler quanto para ouvir. Mas esse burilar só é feito depois que o poeta tem nas mãos todo sentimento na sua forma bruta, como foi sentido e como foi vivido. Por trás daquele belo, precioso e caro diamante está uma pedra bruta que, trabalhosamente foi lapidada. Olhamos, vemos sua beleza e sabemos que a sua essência está ali, ele é pedra, que se mostrada ao natural não causará o mesmo brilho nos olhos de quem olhar. Assim são os poemas, os sentimentos estão todos ali, fortes, sustentando as palavras lapidadas. Há um sentimento bruto, in natura, por trás de um texto poético.

Não vejo pecado em um texto causar lágrimas, risos, raiva ou qualquer outra sensação. Quando um poeta lança seu texto aos olhos do leitor é impossível ele prevê o que vai causar. Aquilo que impulsionou a construção de um poema só diz respeito ao autor, ninguém pode sentir o que ele sentiu, mas vai senti algo além das palavras que é de cada leitor. Aí está o verdadeiro poema. "...os verdadeiros versos não são para embalar, mas para abalar...", palavras de Mário Quintana, não se passa indiferente por um verdadeiro poema. O abalo está para além das palavras, há sempre algo que não pode ser dito, só sentido.

Cada poeta com seu estilo, seus sentimentos, suas vivências, provocando sensações diversas pelos olhos de quem lê. Naquela emoção que causa susto e leva a um silêncio que está além das palavras, no que leva até o inexplicável é que está a verdadeira poesia.

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