A Garganta da Serpente
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O pleonasmo nosso de cada dia

(Roberto Mauro Thomaz)

A palavra pleonasmo não é popular, e muita gente nem sabe ao menos o que significa. Pleonasmo é uma figura de linguagem, a palavra é de origem grega e significa redundância de termos, o exagero, a superabundância. E apesar de muitas pessoas ignorarem a sua definição ela está na boca do povo, e como diria um professor meu o pleonasmo "está na pragmática". Basta uma olhada rápida para as conversas do dia-a-dia, seja no bar, na biblioteca, no escurinho do cinema, no ponto de ônibus. Nem em entrevista para conseguir um emprego o pleonasmo dá sossego, aí é que ele aparece mais porque é o momento em que queremos impressionar e esquecemos de nos policiarmos.

Um anúncio de jornal oferece uma ótima oportunidade para um grande cargo em uma conceitua empresa, você então rapidamente se candidata para a vaga e marca uma entrevista com o executivo da empresa e frente a frente com seu futuro chefe vai fazer de tudo para causar uma boa impressão, afinal a primeira impressão é a que fica.

- O que você pretende contribuir com a empresa se for contratado? - Pergunta o seu futuro chefe.

- Pretendo trabalhar muito na filial em Belo Horizonte e ampliar enormemente as vendas em conseqüência ao alto faturamento criar novos empregos. - Você responde eloqüentemente

- Infelizmente você não serve para a nossa empresa, o seu perfil vem de encontro ao que estamos esperando, você se sairia melhor em um circo.

- Como assim, você está me chamando de palhaço? - Você responde indignado.

- não me entenda mal, o seu perfil é muito mais para mágico do que para palhaço.

- ainda não consigo entender.

- Ora bolas! Alguém consegue criar algo velho?

Que baita injustiça ser preterido em favor do pleonasmo. Por isso devemos estar atentos em todos os momentos.

Quero tomar a liberdade e ajudá-lo(a) com algumas dicas que serão importantes para evitarem situações como esta.

No seu habitat natural tente ser cercado por muitos livros e sempre que for necessário recorra ao dicionário. Ops! acho que cometi uma gafe todo habitat é natural. Desculpe-me por esta falha, mas vamos seguir com as orientações. Como o mundo está globalizado e as pessoas estão mais próximas umas das outras estamos enfrentando um grande fenômeno, ou melhor, a febre de convivermos juntos. Agora surgiu uma grande dúvida. É possível conviver separadamente? Não desanime se o pleonasmo está tentando atrapalhar a sua vida. Não dê bola para ele pense no seu futuro imagine-se recebendo o Oscar e naquela cerimônia maravilhosa de entrega você frente a frente com miríades de pessoas quiçá milhões, com o microfone em punho discursando:

"Agora que estou famoso(a) escreverei minha autobiografia muito em breve".

E se algum engraçadinho quiser estragar o seu discurso dizendo que se é autobiografia, já é sua e não pode ser de outro. Não fique triste mantenha a posse e siga em frente no seu maravilhoso discurso, mantenha o sorriso nos lábios, porque afinal de contas você não é contorcionista para sorrir com o umbigo, ou é?

Olhe para frente e tente sair pela tangente homenageando a sua bela mulher, faça uma sessão nostálgica e conte para o público como você a conheceu e como era romântico, fale daquela noite em que vocês estavam a sós debaixo de uma árvore e você como poeta nato que é versejou para ela " olha amor como hoje a noite está bonita e como reluzem as estrelas do céu" ela estará tão apaixonada que não perceberá que só podem existir estrelas no céu. Fique com os olhos fixos na platéia e se por ventura estiver presente alguma autoridade você também pode homenageá-los "obrigado pela presença do senhor general do exército, do senhor brigadeiro da aeronáutica, do senhor almirante da marinha". Afinal quem vai prestar atenção no detalhe que só existem generais no exército, brigadeiros da aeronáutica, e almirantes da marinha? Afinal errar é humano e falhas como estas são apenas pequenos detalhes; poucas pessoas imaginam que detalhes só podem ser pequenos. Nem o Roberto Carlos imaginou quando cantou " detalhes tão pequenos de nós dois". Quando as coisas não estão dando muito certo é melhor que você pegue o seu boné e vá para casa, reflita e não fique deprimido, afinal você não tropeçou usando aqueles pleonasmos absurdos e clássicos, subir pra cima, descer pra baixo, entrar pra dentro, sair para fora. E você não é o único ser humano a cometer tamanhas falhas.

Imagine que um rapaz muito tímido vai pedir a mão da mocinha lá no interior da Bahia, e o pai da moça é um coronel muito bravo. O rapaz de terno e gravata tremendo muito, o pai da moça com pose de macho e uma voz muito grave querendo saber das intenções do rapaz com a sua filha faz a seguinte pergunta:

"Quais são os seus planos ou projetos para o futuro?"

Com certeza o rapaz tem que se conter muito para não cair em uma gargalhada muito grande porque no seu íntimo ele tem vontade de perguntar:

"O senhor conhece alguém que faz planos para o passado?"

E afinal em qualquer profissão é possível cometer erros com o danado do pleonasmo. Pense no treinador da seleção brasileira depois de vencer seis jogos seguidos e quando o time chega na final ele diz emocionado para todos os jornalistas

"Vou manter o mesmo time para a final"

Ele fala com toda autoridade porque sabe que nem passa pela cabeça do técnico adversário que não se pode manter um outro time. Até os nossos embaixadores também contribuem para o pleonasmo nosso de cada dia, quando estão em algum país e tem a oportunidade para discursarem e defenderem os interesses do Brasil gritam aos quatro cantos

"O Brasil é grande entre os grandes países do mundo".

Afinal de contas ele é muito ocupado pra saber que os países só podem ser do mundo ou podem ser de outro lugar? Até as grandes agências de propagandas querendo fazer um comercial que prenda a atenção do telespectador, ouvinte, também tropeçam e divulgam o seguinte comercial:

"Na compra de um travesseiro azul você ganha outro inteiramente grátis na cor que você quiser".

Afinal de contas o telespectador quer é ganhar e ele com certeza não conhece ninguém que ganhou pagando. Até mesmo os religiosos quando são invadidos por uma grande emoção cometem falhas. Um certo dia um religioso estava dizendo algumas palavras em um velório e querendo exaltar a viúva exclamou:

"A Dona Mariana está há muito tempo conosco em nossa comunidade, e sou testemunha da sua dedicação, apreço, e carinho que tem dispensado a nós; por isso neste momento de consternação em que se tornou viúva do falecido Joaquim Neto Paes ela merece todo o nosso amor e carinho". Afinal de contas o povo está emocionado demais para se preocupar que até que se prove o contrário, não pode haver viúva se não houver um falecido. Até o Sir Caetano Veloso que é um perfeccionista e se preocupa em exaltar a língua portuguesa em suas canções também já foi traído pelo pleonasmo, certa vez cantando emocionado para uma grande platéia soltou esta: "eu tenho meus segredos e planos secretos".

Enfim querido(a) que me lê, não fique entristecido e não perca suas noites de sono. Lembre-se: você não é o único, continue sua vida com tranqüilidade, saia para rua e encare a vida de frente porque afinal de contas até onde sei, você não conseguirá encarar a vida de costas ou de lado. Pleonasmo, eufemismo, catacrese, metáfora, metonímia e tantas outras fazem parte do nosso dia, basta termos coragem e sabedoria para conviver com elas, e se por ventura um engraçadinho ficar irritado com você porque tropeça algumas vezes, e com toda certeza tropeçará, e te mandar calar a boca, não fique irritado nem tente agredi-lo, apenas faça o que ele te pede porque afinal de contas o que mais você pode calar?

Depois de todas estas dicas acredito que você já pode se considerar um perito em pleonasmos de cada dia. Então vamos fazer um pequeno teste. Pense um pouco e em seguida responda. Qual outro pleonasmo é tão comum? "Já sei", diria você. "O pleonasmo mais comum é o voltar para trás", e acrescentaria eloqüentemente "afinal de contas ninguém pode voltar para frente". Mas infelizmente nem tudo pode ser do jeito que a gente gostaria que fosse. Numa rápida olhada na gramática verificaremos que voltar pra trás não é pleonasmo. Então volte atrás e reconsidere sobre o fatídico pleonasmo.

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