Raymundo Silveira |
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Sobre O Ler e O Reler
(Raymundo Silveira)
Pela primeira frase de um texto o leitor costuma decidir se continua ou não
a lê-lo. É o que está acontecendo com este precisamente agora.
Por que estou tão certo disto? Simplesmente porque leio todos os dias desde
os nove ou dez anos de idade, encontro-me na faixa de leitores considerada média
que engloba a maioria de quem se interessa por leitura, e ajo exatamente assim.
Obviamente, logo mais tarde ele voltará a decidir se quer ou não
prosseguir, mas se as primeiras palavras não o interessarem e supondo que
se trata de uma leitura por prazer, e não por obrigação,
como sucede com quem estuda uma disciplina que detesta, simplesmente porque quer
entrar numa faculdade e por isso tem de passar no vestibular, pelo menos o primeiro
parágrafo será decisivo para a sua leitura integral.
Ocorre quanto à escrita algo muito semelhante ao que sucede quanto ao cinema.
Dizem que certa vez um repórter perguntou a Billy Wilder qual seria a principal
razão do seu sucesso como diretor cinematográfico, haja vista que
a maioria dos seus filmes se baseia em roteiros aparentemente triviais, e ele
respondeu com uma frase de seis palavras: "É simples: basta não
ser chato!"
O que me motivou esta escrevinhação foram as palavras de um escritor
amigo meu quando amigos comuns o solicitaram a postar os seus textos em mais de
um dos sites da Internet e ele se saiu assim: "Não gosto de reprises;
de reprises só gosto dos gols do Pelé!" Não concordo
absolutamente com isto, a menos que se trate dos textos de um escritor pra lá
de chato, o que certamente não é o caso dele, pois tenho o costume
de ler os seus escritos por mais de uma vez, do começo ao fim.
Então, a menos que a pessoa deteste ler e seja viciada em futebol, não
há como trocar, releituras sucessivas de bons autores pela chatice de ver
por diversas vezes o mesmo balão cheio de ar entrando entre três
paus, por mais habilidoso que seja o jogador, e por mais espetacular que tenha
sido a sua jogada. Se, somente a intensidade do prazer não dispensasse
maiores comentários, acrescentaria tantas vantagens da repetição
de boas leituras em relação à de lindos gols que, aí
sim, me tornaria superchato apenas pela obviedade.
Um tempero a mais a fim de tornar palatável uma escrevinhação
é uma pitada de humor. Há textos, aparentemente ocos, mas o autor
conhece um macete; uma espécie de erva irresistível,
que atrai a atenção de qualquer leitor. Não pretendo ter
a audácia de dizer que conheço este tempero, mas todas as vezes
que começo a escrevinhar me lembro da frase de Billy e me ponho na situação
de alguém que iria ler aquilo que pretendo pôr no papel. Certa ocasião
redigi um escrito sobre o tema: "Como Escrever Sobre Um Assunto Que Consiste
Em Não ter Assunto Para Escrever". Como se pode aparentemente deduzir,
tinha tudo para não ser lido. Pois recebi inúmeros e-mails favoráveis
e o mais sóbrio deles dizia que quem o escreveu conseguiria tirar leite
de pedras. Mas como tirar leite de pedras e este ser bebível, ao mesmo
tempo? Em outras palavras, o que é ser ou não ser chato? Falar simplesmente
que um texto chato é aquele que não atrai o leitor é o mesmo
que dizer que as trevas são indesejáveis porque nelas não
se podem enxergar os objetos e nem as pessoas.
Então, como evitar a chatice? Simplesmente tentando ser original, criativo
e evitando obviedades, linguagem rebuscada e repetitiva. Se eu tivesse começado
o presente texto por um período como este, por exemplo, dificilmente alguém
o teria lido até aqui: "Toda leitura, para ser prazerosa
e eficaz, deve ser feita num ambiente confortável, calmo, silencioso e
isolado das demais pessoas, do contrário ela não surtirá
o efeito que se pretende adquirir, pois daquelas quatro características
dependerá o desiderato que alguém almejará alcançar".
Acho que fui por demais complacente; certamente o leitor não teria passado
daí, ou sequer o tivesse lido todo. E, se acaso caísse agora na
tentação de querer mostrar onde está a carência de
originalidade e criatividade, bem como, a sua obviedade e a linguagem rebuscada
e repetitiva, me tornaria mais chato ainda do que ele.
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