A Garganta da Serpente
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É Proibido Criar?

(Raymundo Silveira)

Habituados a ler e a escrever textos autobiográficos, alguns "críticos" dessa caótica neoliteratura que é a virtual, propendem a interpretar como sendo real, qualquer tipo de ficção. O termo "caótica" não entra aí assumindo qualquer conotação pejorativa. Trata-se, de fato, de um caos. Nem poderia ser diferente. A Internet á um processo revolucionário. E toda revolução é caótica.

Minha profissão é a medicina. Produzo alguma literatura convencional há pouco menos de seis anos. Mas comecei a cultuá-la aos dez de idade, através da leitura. Abri o "Dom Casmurro" às oito da noite e só larguei quando acabei de ler, às oito da manhã seguinte. Li de cabo a rabo, de uma única assentada. Jamais fui o mesmo. Desde aquela noite não lembro de haver passado um dia sequer sem ler. Lia até quando estava de pileque, podem crer. O próprio "Dom Casmurro", além das "Memórias Póstumas de Brás Cubas", "Quincas Borba", "Esaú e Jacó", "Memorial de Aires", já li seguramente mais de meia dúzia de vezes.

Mesmo quando enveredei pela área da medicina não deixava de carregar, ao lado do meu estojo de instrumentos de dissecação de cadáveres e dos meus tratados das lombrigas, das barrigas d'água, dos tumores, das bexigas e dos corrimentos, o meu volume sobressalente de Dostoievski, Tolstoi, Balzac, Flaubert, Zola, Eça, Dickens, Oscar Wilde, Proust, e tantos outros. Um pouco antes disto, quando estudava interno no Seminário, cheguei a ler até os "Sermões" do Padre Vieira e "Os Lusíadas". Não tinha ainda quinze anos.

Então, não posso ser considerado completamente leigo, apesar de nunca ter escrito nada até 1999. Sei, no mínimo, reconhecer onde existe ou não qualidade. Sei também que uma das principais características de uma obra literária, digna deste nome, é a criação. Por outras palavras: literatura confessional, produzida com propósitos fictícios, geralmente é de má qualidade. Para mim, existe uma fronteira precisa ente a Memória e o Conto. Num Conto - excetuando um ou outro personagem captado da vida real, mas modificado de tal forma que nem ele próprio se reconheceria - tudo o quanto descrevo é produto exclusivo da imaginação. Quando alguém pergunta se foi real algo escrito em forma de ficção, me sinto lisonjeado. Pois uma história fictícia quando se confunde com a realidade se torna mais primorosa.

Freqüentemente, escrevo contos na primeira pessoa, pois o toque de "realidade" se torna ainda mais convincente. Sou tão cuidadoso quanto a este aspecto que, às vezes, exagero. Alguns contos meus, escritos na primeira pessoa, parecem tão reais a ponto de haverem levado alguns sustos a amigos e amigas. Um destes chama-se "A Última Viagem". E aborda o drama de um médico doente de câncer em fase terminal. Cheguei a receber dezenas de e-mails pesarosos. Uma amiga cortou relações quando soube da verdade.

Por um lado, isto gratifica, pois mostra o quanto fui criativo. Por outro, há alguma inconveniência. E às vezes me preocupo. Se fosse verdadeiro tudo quanto já escrevi em feitio de ficção já teria me tornado hipócrita, mentiroso, dependente de drogas, estróina, pulha, monstro, estuprador, assaltante, e frio assassino. Ontem fui implicitamente chamado de louco por escrever a história de um personagem obsessivo-compulsivo. Produto exclusivo da minha imaginação. Devo ficar feliz ou preocupado?

(13/05/2005)

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