A Garganta da Serpente
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São Manuel e Padre Sérgio
A Igreja de um ateu e o Deus de um herege

(m.r.mello)

O profeta Isaías usa o nome Manuel (ou Emanuel) para anunciar a chegada do Salvador. Além disso, Manuel é o nome de um embaixador do Império Persa, martirizado em 363 com pregos nos ouvidos, conforme ordenou o imperador romano Juliano, "o apóstata", sobrinho e sucessor de Constantino.

Quanto a Sérgio, é um nome que se atribui a muitos santos. Um deles viveu como ermitão na época do Imperador Diocleciano (de 284 a 305) e acabou martirizado em Cesaréia da Capadócia por negar-se a prestar homenagens ao deus Júpiter.

Como podemos notar, tanto Sérgio quanto Manuel são nomes muito importantes na história do Cristianismo. Não é mera coincidência o fato de terem sido escolhidos por Tolstói e Unamuno para representarem dois personagens que sintetizam suas reflexões - muitas vezes severas - acerca de Deus e das instituições religiosas.

Padre Sérgio parece ilustrar com sucesso a cosmogonia de um Tolstói já velho, um dissidente da igreja ortodoxa russa, assim como São Manuel nos dá uma idéia precisa das idéias que emergiram na madureza de Unamuno, tão trágica dentro da sua própria lucidez.

Padre Sérgio é na verdade Stiepan Kassátski, um príncipe que abandona o dinheiro, prestígio social, o casamento com uma bela mulher - enfim, um homem que abandona tudo para tornar-se Padre, na tentativa de encontrar novos sentidos para a sua existência. E não se trata de um homem santo, de um predestinado. São justamente as tentações e as dúvidas que corroem Kassátski e que dolorosamente o acompanham por toda a vida; tentações e dúvidas que a igreja pode represar, mas não pode conter, apesar das penitências radicais que prescreve em semelhantes casos. Uma bela cena, embora indiscutivelmente patética, acontece quando Padre Sérgio (agora um eremita de meia-idade) recebe a visita inesperada de uma mulher maliciosa cujo intuito é subtrair-lhe a santidade. A verdade é que podemos sentir as narinas dilatadas do Padre enquanto inspira a fragrância daquela fêmea no cio. Ele desliza pelo desespero como a meia que cai, lentamente, revelando a pele nua da mulher. Aturdido, entrevê nessa figura feminina uma espécie de demônio e a partir de então começa a rezar, prostrando-se diante de seus ídolos. A ereção não é descrita literalmente, mas cada linha lateja o ardor do padre. Sérgio levanta-se febril, agarra sua machadinha e sem sinal de clemência decepa um dedo da mão, chegando a um tipo mórbido de orgasmo, em que o sangue é que pinga pelo membro amputado, estancando apenas momentaneamente a sua volúpia.

O personagem não encontra descanso. Há sempre algo que o perturba, trazendo lembranças do passado ou incitando-o a uma vida diferente. Ele sente que a sua mudança interior, ao entrar para a ordem, é uma mudança superficial, transformando-o num sujeito ainda mais egoísta, num janota do espírito, vaidoso debaixo de suas vestes humildes. Sente que essa pobreza serve ainda mais ao pior tipo de capitalismo; que a sua pretensa santidade distancia-o de seus semelhantes e, mesmo sabendo não poder curar os enfermos, continua abençoando-os em nome de uma fé tacanha e mercantil, mais vazia que sua vida pregressa. Por isso muda novamente, aterrorizado pela própria infâmia, fugindo e se misturando ao povo, até encontrar na simplicidade dessa vida anônima o cristianismo legítimo, sem falsos milagres, sem propinas pagas em nome de supostos ritos mágicos.

Padre Sérgio não é um Padre, justamente por ser incapaz de encontrar alívio em prédicas da igreja. Ele representa o cristianismo de Tolstói, ou o que se convencionou chamar "tolstoísmo", fruto de uma atitude pedagógica positiva, calcada na busca pela verdade - e, consequentemente, pela liberdade - que já não se pode encontrar em nenhum sacramento da igreja, mas no doar-se espontaneamente ao bem-estar do próximo. Esclarecedoras são as palavras do próprio autor na carta em que responde à resolução do Sínodo, que o excomunga da Igreja:

"(...) acusá-los de embusteiros não é apenas necessário, mas um dever. Se há algo de sagrado, de forma alguma será aquilo que chamam de sacramento, mas precisamente essa obrigação de desmascarar o embuste religioso, cada vez que for presenciado".

Ao final da carta de Tolstói podemos intuir o resultado da busca de Kassátski, que depois de tornar-se Padre Sérgio volta a ser apenas Kassátski:

"Aquele que começa por amar o cristianismo mais que a verdade, muito depressa passará a amar mais sua igreja ou seita que o cristianismo, e terminará por amar-se a si próprio (sua tranqüilidade) mais que tudo no mundo - disse Coleridge. Segui o caminho inverso. Comecei a amar minha fé ortodoxa mais que minha tranqüilidade, depois passei a amar o cristianismo mais que minha igreja, agora amo a verdade mais que tudo no mundo. E até aqui a verdade para mim coincide com o cristianismo, como o entendo. Professo esse cristianismo e, à medida que o professo, vivo tranqüilo e feliz, e tranqüilo e feliz vou-me aproximando da morte".

Padre Sérgio acaba na Sibéria, dedicando-se ao próximo. Esse é o final, literariamente até meio tíbio para um livro que se desenrola com tanta energia, apresentando-nos a saga desse atormentado perseguidor. Kassátski é um perseguidor, sim, ao seu modo, e ao modo do velho Tolstói. Do mesmo modo como foram perseguidores o Quixote, para Cervantes, Raskólnikov para Dostoievski, José Servo para Hermann Hesse, Riobaldo, pra Guimarães Rosa e por aí adiante.

No que diz respeito a São Manuel, entretanto, Padre Sérgio aparentemente encontra mais dissonâncias do que intersecções. Kassátski, como vimos, está sempre em busca da verdade (é a essa verdade que Tolstói chama de Deus). Para São Manuel, a única e terrível verdade é a inexistência de Deus, a orfandade dos homens. Padre Sérgio se liberta redentoramente quando encontra a verdade, voltando a viver como Kassátski, igual entre os seus. Já entre o Dom Manuel homem e o São Manuel santo, o desespero é o mesmo. Ele não se liberta com a verdade, ao contrário, se vê condenado a essa verdade, porque para ele a inexistência de Deus o leva à tentação do suicídio. Sim, o padre de Unamuno não é simplesmente um ateu. É também um suicida:

"E como me chama essa água com sua aparente quietude - a corrente vai por dentro - reflete ao céu. Minha vida, Lázaro, é uma espécie de suicídio contínuo, um combate contra o suicídio, o que é igual; mas que vivam eles, que vivam os nossos!". E logo acrescentou: "Aqui o rio se amansa em lago, para depois, ao baixar à planície, precipitar-se em cascatas, saltos e torrentes por serras e vales, junto à cidade; e assim se amansa a vida, aqui, na aldeia. Mas a tentação do suicídio é maior aqui, junto ao remanso que espelha as estrelas à noite, e não junto às cascatas que dão medo. Olha, Lázaro, venho ajudando para que tenham boa morte os pobres aldeãos, ignorantes, analfabetos que mal haviam dado um passo pra fora da aldeia, e pude saber de seus lábios, ou então adivinhar, a verdadeira causa da sua doença mortal, e pude olhar, ali, na cabeceira de seu leito de morte, toda a negrura do abismo do tédio de viver. Mil vezes pior que a fome! Continuemos, pois, Lázaro, suicidando-nos em nossa obra e em nosso povo, e que sonhe esta sua vida como o lago sonha o céu".

Se existe amor em São Manuel, esse amor apenas o livra da morte, mas não torna a vida menos insuportável.

Lázaro é o único personagem a quem Dom Manuel confia seu segredo, embora quem narre toda a história seja a puritana irmã de Lázaro, Ângela Carballino. Isso porque Lázaro não faz parte de seu rebanho; chega da cidade grande com idéias modernas, acompanha o progresso científico e interpreta a igreja como uma instituição medieval. Vejamos a diferença com que o pároco Manuel trata os dois irmãos, durante uma benção:

"Quando chegou a vez de dá-la a meu irmão, desta vez com a mão firme, depois do litúrgico: "... in vitam aeternam" inclinou-se ao seu ouvido e lhe disse: "Não há vida mais eterna que essa... que a sonhem eterna... eterna de uns poucos anos...". E quando chegou minha vez, me disse: "Reza, minha filha, reza por nós".

São Manuel é um personagem muito mais trágico que Padre Sérgio; um homem sem qualquer refúgio entre os homens. Ele já não busca Deus na certeza de não poder encontrá-lo; vê-se desde sempre fadado à solidão, sem Deus, sem enigmas. Segue intimamente as palavras de Calderón, "Vida es Sueño", mas continua pregando para o seu povoado as palavras de Cristo e (como isso causaria nojo a Kassátski e a Tolstoi!) usa os sacramentos e mais todos os embustes da igreja para manter as pessoas sonhando com a vida póstuma, tapeando as agruras do presente com fórmulas mágicas, vinho e pedacinhos de pão. Enquanto Kassátski se enoja com a santidade que o povo atribui ao Padre Sérgio, por sabê-la fraudulenta, São Manuel não poderia fazer nada sem essa santidade; Dom Manuel é desde sempre São Manuel Bom, o mártir, aquele que padece pelos outros, como Cristo padeceu. E o ateísmo desse São Manuel é ainda cristianismo, mesmo que distinto do cristianismo de Tolstói. Pois o personagem de Unamuno chega ao limite extremo de refutar a fé de Jesus:

"E logo, algo tão extraordinário que eu carrego no coração como o mistério supremo, e foi o que ele me disse com o que parecia ser voz de outro mundo: "... e reza também por nosso Senhor Jesus Cristo...".

Jesus, para São Manuel, foi também um mártir que viveu para manter seu povo sonhando; um homem que fez a mais dolorosa das vigílias para preservar o povo humilde da solidão cruciante, da dor inconsolável de não existir uma nova chance para ser feliz.

Tolstói via Cristo como um profeta, um homem que trouxe à humanidade boas palavras, palavras que nos aproximam do Amor. No entanto, achava que rezar para Cristo e não para Deus seria uma tremenda idiotice, pois Deus não tem a forma de um homem, Deus tem a forma do Amor.

Unamuno, por outro lado, evocado aqui através do seu personagem São Manuel, não crê em nenhuma espécie de Deus, é profundissimamente ateu, mas constrói uma forma radical de Cristianismo através do homem Cristo. Para ele, Cristo foi o único que existiu, jamais tendo havido um Deus que se comunicasse por suas palavras.

O martírio de Padre Sérgio é viver quase toda a sua vida no seio de uma mentira: a Igreja. Enquanto não descobre o verdadeiro cristianismo no amor desinteressado pelos homens (até voltar a ser um Kassátski anônimo), Padre Sérgio sofre o flagelo da dúvida e do arrependimento, pois todos os cargos que ocupa dentro da igreja são políticos, até mesmo o de eremita.

São Manuel, por sua vez, também não crê no poder dos sacramentos, mas utiliza-os como panacéia para manter o seu povo sonhando:

"Pensem como pensem e trabalhem como trabalhem os homens, que se consolem de haver nascido, que vivam da forma mais contente possível na ilusão de que tudo isso tem uma finalidade".

Assim, estão traçadas em linhas gerais as principais angústias que permeiam as duas novelas, "São Manuel Bom, mártir" e "Padre Sérgio", revelando-nos os profundos questionamentos existenciais de Tolstói e de Unamuno. Observamos que são muitas as diferenças e as particularidades de cada um, embora pudessem até mesmo ter convivido (Tolstói foi de 1828 a 1910 e Unamuno de 1864 a 1936).

Desde que li as duas obras passei a compará-las espontaneamente, e acredito que os dois livros só se beneficiam de uma análise conjunta.

O que busquei traçar foi somente um ensaio a partir de um insight, uma intuição de leitor. Se fôssemos entrecruzar dados biográficos de Tolstói e Unamuno, iríamos encontrar outras tantas coincidências ou dissonâncias interessantes, que talvez rendesse trabalho para duas ou mais vidas.

Também seria possível estabelecer um diálogo com os textos acadêmicos produzidos sobre as novelas e eu até esbarrei com uma porção deles na internet (alguns equivocados ou preconceituosos; principalmente os textos que versavam sobre o personagem de Unamuno). Por essa e por outras, decidi evitar agora um confronto que seria restrito e seguramente improfícuo.

Finalmente, valeria a pena analisar lado a lado os aspectos formais das duas novelas, pois tanto "Padre Sérgio" quanto "São Manuel Bom, mártir" representam momentos singulares na criação de Tolstói e Unamuno.

Mais do que tudo, espero que esse ensaio tenha servido como estímulo à leitura ou, quem sabe, a uma releitura dessas duas obras profundas e desses dois personagens fascinantes.

(Rio de Janeiro, 06.01.2011)

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