A Garganta da Serpente
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Poetas da Internet

(Maria José Zanini Tauil)

É grande o número de poetas que criam páginas na internet, para a divulgação de seus poemas. A publicação não garante que o poeta seja bom.

Provavelmente, uma pesquisa séria sobre poesia virtual poderá revelar grandes poetas, um movimento de vanguarda.

As editoras não consideram lucrativo publicar poetas desconhecidos, não existe incentivo algum e os custos são altos. Quem pode, banca esses custos.

Essa poesia constitui um movimento organizado, com novas propostas estéticas. É freqüente a linguagem coloquial e temas do cotidiano, ora manifestando problemas pessoais ou sociais. É o que os críticos chamam de poesia marginal.

Na década de setenta, o poeta social, principalmente diante do controle da censura, usava uma linguagem indireta e metafórica.

Ele deixou de ser um produtor cultural solitário. Cresceu o interesse dele pela música popular, em razão de sua penetração mais eficaz junto ao público.

Como diz Mario Quintana,"palavras podem ter forma de poesia, brotar do fundo da emoção, do desabafo".

Interessante essa turminha que se instala para criticar. Leio coisas incríveis nos livros de visitas dos sites. Gostaria muito de ler alguma criação de quem critica. Li uma declaração de uma pessoa, que reclamava de uma certa poesia que não tinha uma só rima.

Sou poeta de rede, poeta marginal. Não gosto de arrumar meus versos em estrofes, se eu repetir sons, em forma de rimas, serão ocasionais. Nada de regras clássicas, de métrica e ritmo. Quero meus versos brancos, traduzindo o meu pensamento. Que ninguém se atente a escandi-los, pois são heterométricos. Quero formas libertas, nada de redondilhas, nem maiores, nem menores.

Quanto aos erros de português, alguns são desculpáveis. Se Camões, o maior nome da literatura portuguesa, usou um cacófato, terrível vício de linguagem, em "ALMA MINHA GENTIL QUE TE PARTISTES"..., sinto-me muito à vontade para cometer alguns errinhos.

Escritores consagrados têm revisores de textos e ganham fábulas. Ser poeta ou escritor, não significa ter um português perfeito.

Cora Coralina, grande poeta, reconhecida já na velhice, teve seus poemas publicados com rigorosa correção ortográfica e de concordância.

" As rosas não falam... Simplesmente elas exalam o perfume que roubam de ti"...Quanta poesia nesses lindos versos de Cartola, que era semianalfabeta. Seus textos tinham correção.

Isso me faz lembrar de Bethoven, que ficou surdo e mesmo assim, compunha. Ele ouvia suas músicas através da alma. Sua arte era inata. Isso é superar limitações, transpor obstáculos. Não escrever direito não pode ser barreira para quem tem o dom da criação.

Tem um poeta na rede, que escreve coisas lindas. Pude constatar que são corrigidas, quando ele me mandou um e-mail assim: " fasso coizas"...Por causa disso ele deixa de ser poeta?

Não estou fazendo apologia ao erro, mas não é através da escrita perfeita que se identifica o valor de uma obra literária.
Ela deve ser analisada pelo conteúdo,... pelo que pode acrescentar como arte, beleza, ensinamento, ironia, humor, filosofia de vida.

Quem critica, não sabe pescar, não sabe peneirar, não sabe filtrar. Tem joio no meio do trigo, é verdade,... mas tem muita gente boa, que é capaz de retomar os temas românticos sem sentimentalismo piegas, com a presença constante de metáforas e símbolos,... e se existirem erros e eles não ferirem a retina (ou os ouvidos), não se opondo a tendência natural da língua, tudo bem... Há um distanciamento entre o padrão culto e o popular. Se o poeta for popular, não há erro.

Acredito que um dia, os poetas virtuais serão comentados nos livros de literatura. Os bons deixarão seus nomes registrados na história literária brasileira.

Dizer que não é um movimento de vanguarda, que nada acrescenta de novo é tolice.

Em que estilo de época faziam poesias em dupla, em cirandas? Lançar um tema no ar e todos acompanhá-lo, como vagões de um trem. Isso é lindo!

De modo geral, essa vasta produção poética é caracterizada pelo experimentalismo, pouca preocupação ideológica, muita irreverência e uma retomada forte ao romantismo sensual.

Critiquem... não me leiam... Continuarei escrevendo. É uma herança cultural que deixarei para os meus filhos.

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  • Publicado em: 15/10/2004
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