A Garganta da Serpente
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Maurilio Tadeu de Campos
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Castro Alves, a poesia e o despertar do ser
(Maurilio Tadeu de Campos)

Esperai! esperai! Deixai que eu beba / Esta selvagem, livre poesia, / Orquestra é o mar, que ruge pela proa, / E o vento, que nas cordas assobia...” Esses versos de Castro Alves enfatizam o comprometimento do poeta com o seu tempo. A ira do homem, mesclando-se ao lirismo do poeta resultou em uma denúncia ao desumano tratamento que o dito ser humano manifestava, escravizando seu semelhante, de outra origem, de outra cor, mas de natureza igual e, quem dera, fosse ele igual, também, em direitos e dignidade. Nos inúmeros versos que compõem “O Navio Negreiro”, Castro Alves mostrou-se descontente com a escravidão negra, com a desumana trajetória de homens subjugando homens. O poeta não estava alheio aos acontecimentos sociais. A rica obra poética de Castro Alves aborda questões sociais e a escravidão, usando o mesmo caráter grandiloqüente da poesia social de Victor Hugo. São versos repletos de indignação, que tem o objetivo de levar os leitores a compartilhar esse sentimento e a lutar por uma sociedade menos desumana e mais justa. “Não basta inda de dor, ó Deus terrível? / É, pois, teu peito eterno, inexaurível / De vingança e rancor?... / E que é que fiz, Senhor? que torvo crime / Eu cometi jamais que assim me oprime / Teu gládio vingador?!" Vozes d’África, outro poema de Castro Alves, reflete o sentimentalismo associado à indignação, ao inconformismo. Ele também escreveu poemas líricos, inspirados na figura feminina. A mulher deixava de ser uma donzela inacessível, tornando-se sensual, concreta, colocando-se, eventualmente, ao alcance: “Tu és a minha vida... o ar que aspiro... / Não há tormentas quando estás em calma. / Para mim só há raios em teus olhos, / Procelas em tua alma!” Enganam-se os que dizem que a poesia está alienada da realidade. Quem pensa assim, de fato, nada conhece de poesia, nada sabe dos muitos poetas que emprestam seus talentos para, através de seus versos, exercitarem a crítica social, ousada e dura, translucidamente disfarçada no lirismo dos poemas. A poesia é, como todas as formas de arte, a manifestação do artista, engajado no dia-a-dia da humanidade.

Castro Alves nasceu no dia 14 de março de 1847 e morreu novo, aos 24 anos de idade. Seu talento foi reconhecido por escritores consagrados, como José de Alencar e Machado de Assis. Em sua homenagem, o dia do seu nascimento foi escolhido para lembrar a poesia, essa manifestação de arte não devidamente valorizada. Antônio Houaiss definiu poesia como a arte de excitar a alma com uma visão do mundo, por meio de melhores palavras em sua melhor ordem, usando-se o poder criativo e a inspiração para despertar, também, o sentimento do belo e o que há de elevado e comovente nas pessoas. A poesia tem, portanto, papel importante na preservação do sentimento, da sensibilidade, possibilitando que o homem tenha, a partir do hábito da leitura de bons e inspirados poemas, completa visão crítica da realidade que o cerca. Os valores embutidos na poesia podem contribuir para a mudança de atitudes, libertando do ser a sensibilidade nele encarcerada, para que cada homem possa estar mais receptivo ao seu semelhante e, também, mais disposto a estender as mãos, a abrir os braços para inúmeros abraços e para as carícias despretensiosas e puras, sem preconceitos bobos.

A poesia é e será o instrumento adequado à reforma íntima, ao despertar do ser legítimo, aquele que ansiamos ser, mas que ainda não sabemos como concretizar essa vontade. Então, é só uma guinada branda, uma atenção maior à poesia, aos poetas; esse gesto simples nos causará espanto, que será ainda maior a partir do contato com diversos poetas e suas produções literárias. Um bom mergulho na poesia nos transformará; quando retornarmos desse mergulho, estaremos mais saudáveis, mais otimistas, mais atentos a nós mesmos, mais preparados para a convivência com outros seres, com a natureza. No dia 14 de março, Dia da Poesia, quero manifestar aos poetas, a esses incansáveis, inconformados e atentos sonhadores, o meu profundo e eterno respeito.


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