A Garganta da Serpente
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Ora "metáforas" ! Ou será metapoesia?

(Madalena Barranco)

Eu não preciso dizer que adoro esse recurso poético... Porque para mim:

A metáfora é a hélice da imaginação

Imagens são helicópteros
que pensam na vertical
perfuram a atmosfera
e viram nave espacial.

Madalena Barranco

A METÁFORA sugere, mexe com a imaginação e faz o pensamento viajar além das possibilidades que uma palavra encerra em suas letras. Ela tem sido um dos recursos mais utilizados pelos poetas de todas as épocas, mas isso não quer dizer que todas as poesias tenham que ter metáforas. Por exemplo, o poeta chileno Pablo Neruda (* 1904 † 1973), que ganhou o Prêmio Nobel de Poesia em 1971, tinha por estilo o uso desse recurso e o defendia como inestimável peça na composição dos versos, como nesse trecho de uma poesia dele:

si no fuera porque eres el momento amarillo
en que el otoño sube por las enredaderas
y eres aún el pan que la luna fragante
elabora paseando su harina por el cielo,


Autor: Pablo Neruda (texto original)


se não fosse porque és o momento amarelo
em que o outono sobe pelas trepadeiras
e és ainda o pão que a lua perfumada
prepara passeando sua farinha pelo céu
,

Autor: Pablo Neruda; tradução: Madalena Barranco


Mas, o que é mesmo "metáfora"? Acaso será alguma "meta fora" do significado? É mais ou menos isso! Ou melhor é palavra de origem grega "metaphorá", em latim "metaphora" = "meta" > mudança, posterioridade, além, transcendência, somada a "fora" > parte exterior, outro lugar, sempre em frente. Classificada pela gramática portuguesa como figura de linguagem saiba mais sobre figuras de linguagem, que é um desvio das normas, provocado para conferir expressividade à própria linguagem, a metáfora se encaixa na subdivisão das mesmas como figuras de palavras. Sua função é usar uma palavra com o significado de outra, considerando uma relação de semelhança entre o que ambas representam. E nada como um exemplo para entendê-la melhor. Para isso destaquei algumas metáforas do trecho do poema de Pablo Neruda acima, grifado..

Em "e és ainda o pão que a lua perfumada prepara passeando sua farinha pelo céu," a musa inspiradora é diretamente representada pelo "pão que a lua perfumada prepara (...)", onde "o pão" personifica-se na própria amada!

Uma das melhores maneiras para entender a metáfora é assistindo ao filme "O Carteiro e o Poeta" (Il Postino), protagonizado por Massimo Troisi (o carteiro Mário) que recebe aulas de poesia e basicamente de metáforas diretamente do poeta Pablo Neruda, representado pelo ator Philippe Noiret. O carteiro apaixona-se pela moça da estalagem, Beatrice, e esse é um dos motivos que o levam a pedir ao poeta chileno que lhe ensine poesia para conquistar sua musa. Em uma das cenas, o poeta pergunta a Mário como ele entenderia se ele dissesse que "o céu estava chorando" e o carteiro responde que essa é a imagem que representa a chuva. Em outra cena ambientada na praia da ilha italiana, onde Neruda foi exilado e se passa a maior parte do filme, o poeta declama a seguinte poesia e depois pergunta ao carteiro sua opinião. Leiam a poesia:

Aqui na ilha há tanto mar,
O mar e mais o mar.
Ele transborda de tempo em tempo.
Diz que sim, depois que não,
Diz sim e de novo não.
No azul, na espuma, em galope
Ele diz não e novamente sim.
Não fica tranqüilo, não consegue parar.
Meu nome é mar ele repete
Batendo numa pedra, mas sem convencê-la.
Depois com as sete línguas verdes

De sete tigres verdes, de sete cães verdes,
De sete mares verdes
Ele a acaricia, a beija e a umedece;
E escorre em seu peito
Repetindo seu próprio nome.

Autor: Pablo Neruda

O carteiro responde que está enjoado... Para isso basta ler a poesia em voz alta, que além das metáforas (destaquei as mais significativas em vermelho), há o ritmo do mar nos versos, que nesse caso tem o próprio balanço das ondas (vai e vem)!

Para mim, uma poesia recheada de metáforas me faz pensar em denominá-la como "metapoesia" - algo que transcende o próprio significado e se relaciona diretamente com arcanos da alma do leitor.

Temos outro bom exemplo de metáforas nesse trecho de "Ah, um soneto..." - poesia de Fernando Pessoa (Álvaro de Campos - heterônimo):

Meu coração é um almirante louco
que abandonou a profissão do mar
e que a vai relembrando pouco a pouco
em casa a passear, a passear...

Autor: Fernando Pessoa

Onde é explícita a metáfora quando Fernando Pessoa afirma que o "coração é um almirante louco"!

Quero frisar que metáfora é um elemento que ajuda a poesia a ganhar as tão sonhadas asas da imaginação, porém, nem por isso ela é essencial para a composição de uma bela e perfeita poesia. Na célebre poesia de Carlos Drummond de Andrade, "No meio do caminho", por exemplo, as metáforas estão ausentes, mas nem por isso, Drummond deixa de criar fortes imagens poéticas. Vejam, ou se preferirem, leiam:

No meio do caminho tinha uma pedra
tinha uma pedra no meio do caminho
tinha uma pedra
no meio do caminho tinha uma pedra.

Nunca me esquecerei desse acontecimento
na vida de minhas retinas tão fatigadas.
Nunca me esquecerei que no meio do caminho
tinha uma pedra
tinha uma pedra no meio do caminho
no meio do caminho tinha uma pedra.

Autor: Mário Drummond de Andrade


REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS.:
  • Dicionário Novo Aurélio - da editora Positivo;
  • Gramática em 44 Lições - Francisco Platão Savioli - da Editora Ática;
  • Apostila da oficina "Poesia e Consciência da Linguagem I", curso de Frederico Barbosa;
  • Sobre o filme "O Carteiro e o Poeta""
  • Sobre Pablo Neruda - Wikipédia"
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  • Publicado em: 02/04/2007
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