A Garganta da Serpente
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O ser social e a arte

(Leonardo de Magalhaens)

Sendo um produto da fisiologia e da interação social, o ser humano é formado pelos condicionamentos de sua herança genética e de seu contexto histórico, as condições do corpo e as situações socio-econômicas, além da qualidade (ou deterioração) do meio ambiente.

O ser humano não escolhe viver, não escolhe os pais, não escolhe o próprio nome, não escolhe onde vai nascer, nem quando, não escolhe o idioma no qual será alfabetizado, não escolhe o cardápio, não escolhe o grupo étnico, não escolhe quais doenças vai sofrer, não escolhe a sexualidade, não escolhe os governantes (pelo menos até a idade eleitoral...), não escolhe muita coisa realmente. Com uma exceção: pode escolher morrer. Pode decidir sua própria morte: o suicídio. Se a vida merece ser vivida é a única questão filosófica realmente válida. O resto é metafísica.

Onde então a liberdade? Num mundo de condicionamentos, não há liberdade. Tudo já está em potência, tudo está em pro-jeto, tudo está-aí. O ser humano se locomove numa 'floresta de símbolos' (assim dizia Baudelaire) já dados, já pré-formatados. Sua fala, suas roupas, seus gestos. Até quando julga que seja 'sua' fala, 'seu' gesto, tudo é uma reação ao já existente. Uma reação aos pais, à família, ao grupo social, aos líderes religiosos. Uma reação que é compartilhada - ou então a excentricidade é logo classificada como 'desvio', ou loucura. É difícil portanto, ser 'diferente'. Qualquer mudança é demorada e sujeita a 'inércia social', ou seja, a reação dos 'conservadores'.

Os conservadores são os acomodados. Aqueles que lucram com o atual sistema de coisas. Em contraposição aos conservadores existem os 'flutuantes', ou seja, aqueles que são rotulados de rebeldes, subversivos, revolucionários, gênios, loucos. Aqueles que querem fazer algo DIFERENTE. Isto é, dizer o que não foi dito, escrever o que não foi escrito, cantar o que nunca foi cantado. Contudo, o 'flutuante' atua a partir do que já existe. Ele faz um som? Mas antes alguém inventou o violão, a bateria. Ele fez um blog surreal? Mas usa o idioma em que foi alfabetizado e usa as invenções do computador PC e da internet.

Em resumo: a 'flutuação' já é parte da determinação. Assim como o câncer brota da própria reprodução das células. Sem essa 'flutuação' a determinação se repetiria, seria um acúmulo constante de 'inércia social'. Após 10 mil anos de sociedade o ser humano ainda estaria comendo carne crua. Mas alguém no meio social conseguiu convencer (e com dificuldade!) os demais a assarem, cozinharem, a carne crua, até que semelhante ação 'culinária' se tornou comum. Depois veio um outro flutuante que decidiu que o melhor seria temperar a carne, e jogou uma ervas, e todos passaram a condimentar a carne. E assim por diante.

Sem os flutuantes o mundo estaria numa inércia de mesmice. Tudo seria o mesmo de geração a geração. Mas graças as mentes flutuantes - que sempre sofrem de insatisfação e inadaptação - a sociedade consegue se beneficiar, mesmo que de início isole, em resistência, os 'rebeldes', ou até mesmo queime os mesmos nas fogueiras. A flutuação não é a liberdade, mas uma 'acomodação das placas tectônicas' da sociedade. Quando a coisa vai ficando improdutiva, tediosa, alguém grita um 'Eureca' e reinventa a roda. (Uma imagem muito querida por Edgar Allan Poe)

A arte - ou melhor, o artista - é a flutuação por excelência. O que não significa que o artista seja livre. Ninguém está livre - pode se pro-jetar numa situação de escolha - mas a partir de contextos já dados, conjunturas já formadas. (Com essas ideias os ilustres Camus, Sartre e Beauvoir encheram folhas e mais folhas de palavras - e nada resolveram) Mas o artista 'flutua' além da coletividade porque tem uma ilusão a mais que os demais - a noção de Eu, de sujeito consciente. Gera assim um 'egocentrismo' que move sua mente criadora a ponto dele, o flutuante, achar que sua visão de mundo é melhor que a dos demais e nessa pretensão ele reinventa a pólvora. Faz uma melodia e acha genial, pinta um quadro e entra em êxtase, escreve um texto e se julga o novo ganhador do Nobel de Literatura.

O egocentrismo do artista é uma mera ilusão. Ele é mais um na multidão. Vive no mesmo contexto. Sua subjetividade é uma leve flutuação da mesmice. Ele nasceu com uma dor demasiada - o mal-estar, a náusea - e consegue criar algo a partir do desassossego (um flutuante não artista vai se perder nos vícios, nas drogas, álcool, jogo, ou no crime, na luxúria, no fanatismo religioso, etc, nunca numa superação: a criação artística) e conseguindo sobreviver, deixa uma marca da sua existência: sua obra.

É a obra que justifica a existência comum (ou excêntrica) do artista. Sua obra é a superação do estado de náusea (mesmo quando o fim do artista seja o suicídio) pois alguém mais vai conhecer sua criação. Se num primeiro momento criação é subjetiva - necessidade de desabafar, por exemplo - num segundo momento vai agir coletivamente - outros vão apreciar ou criticar. E essa obra vai agir coletivamente: para REAFIRMAR o mundo ou para DENUNCIAR o que está por aí. O artista é responsável perante a obra enquanto criação, porém não pode se responsabilizar pelo USO que outros fazem da obra.

Não podemos culpar Nietzsche pelo Nazismo, não podemos culpar Marx pelo Bolchevismo/Estalinismo, não podemos culpar Goethe quando muitos leitores se mataram solidários com os sofrimentos do jovem Werther. Pois o criador pode perde controle sobre sua obra e ela se tornar um medonho Frankentein. Daí que a obra (a menos que engavetada ou queimada - como desejava um Kafka) sempre vai atuar coletivamente, quando tem a validade de dizer algo mais do que o desabafo ( o grito, de E. Munch!) do(a) autor(a), mas o desabafo (o grito) de um grupo de pessoas, de uma classe social, de um coletivo. Quando ouvimos o grito do artista, então sentimos que fomos enfim tocados pela Arte.

Agora, o que seja a Arte, isso é outra questão. E possivelmente sem definição.

(Jan/09)

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