A Garganta da Serpente
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O que é escrever bem?
- breve ensaio -

(Leonardo de Magalhaens)

Recebi a três semanas um e-mail a indagar-me o que seja 'escrever bem'. Confesso que fiquei a meditar uns bons cinco minutos antes de encontrar uma linha de argumentação suficiente o bastante para responder tal questão.

Também fui reler O QUE É LITERATURA? Do filósofo francês Jean-Paul Sartre, além de trechos de Bachelard, a procura de uma iluminação súbita, um insight providencial, que me orientasse no momento de abordar a minha própria atividade.

Por que este receio? Por que este temor de tentar desmistificar a escrita? Lembro de uma parábola húngara que, de inusitada, retrata bem o problema.

Dizem que numa aldeia, ao sul de Budapeste, havia um homem que era um excelente operador, com cortes rápidos e certeiros, não com um bisturi, mas com uma navalha! Que era muito mais habilidoso que muito cirurgião da capital. Até catarata o homem operava. Fazia o paciente sentar-se na cadeira, em sua oficina (pois o homem era artesão) e abrindo as pálpebras lacrimejantes, passava a navalha nos olhos, deixando as vistas limpas! Isso antes ninguém vira! E a notícia correu mundo, até chegar à capital. Um doutor de Budapeste desceu até a aldeia, para conhecer o tal 'mão de ouro' e encontrou mesmo.O homem diante de uma matrona, acompanhada pelos filhos, e por catarata nos dois olhos. Ela dizia apenas enxergar os vultos mais próximos. Pois é, o homem, num gesto preciso, correu a lâmina sobre o olho direito e - pronto! - o manto nebuloso sumiu! Aí o médico quase perdeu o fôlego, abordou o artesão com um palavreado hermético e gestos enfáticos: "mas o senhor não sabe que é um olho! Não pode entender fragilidade da íris, a delicadeza da esclerótica, e o cristalino, então! E não puxe a pálpebra tanto assim pode provocar um desligamento!"

O Artesão ficou ali, de boca aberta, a tentar entender aquele mistério todo - e sua mão começou a tremer! Sim, diante do olho esquerdo - e sua mão tremia! "Não, não posso operar! Não posso tocar em algo tão frágil!" E a mulher ficou com o outro olho nublado.

Moral: quando se pensa muito, não se anima a agir - ou - não só de conhecimento se faz a ação. Ou qualquer outra moral.

Mas eu vejo assim: enquanto o artesão não conhecia a complexidade de um olho, ele agia por instinto, por prática, como muitas parteiras do interior, que desconhecem obstetrícia. E quanto tomou conhecimento, perdeu a sua coragem em si mesmo. Assim como muitas parteiras ficariam perplexas se encontrassem uma obstetra.

Assim é com muitos profissionais (e amadores) da escrita - uns possuem o instinto, o feeling, a audácia, o enredo, mas desconhecem a técnica, a gramática, o dicionário, ou seja, o manual de redação; enquanto outros são professores, mestres em literatura, vivem meio às apostilas e manuais, mas, no entanto, não escrevem nem um poeminha que convença.

Sim, enquanto alguns têm a técnica, e são estéreis, outros têm o talento, e são ineficientes. Estes não conseguem se aprimorar, devido ao pouco embasamento lingüístico, aqueles não produzem por faltar o dom da observação e da imaginação.

Posso enumerar vários exemplos dos dois casos, lembrando aqui autores de BH, Betim e Contagem, que conheço e acompanho a obra, mas seria excessivo. Até porque o padrão tem sido esse mesmo, e o bom escritor é aquele que consegue unir talento + técnica. E eis o segredo para o sucesso (que ainda necessitará de um terceiro ingrediente: a mídia).

Escrever bem é dominar uma técnica para expressar construtos da imaginação. É saber comunicar incomunicável, e com clareza temática e correção gramatical. É construir uma ponte até o outro - feita de concreto e diamante. É dizer algo novo e com formato novo. É transtornar a linguagem após tê-la ultrapassado (e não como muitos fazem., ao justificarem erros idiomáticos, alegando novidade artística!)

Escrever bem é apropriar-se do mundo observado numa perspectiva totalmente pessoal e tornar tal observação numa descrição capaz de alcançar e seduzir o outro. Até porque 'alcançar' já é um desafio, pois é um encontro de transcendências, uma capacidade de transpor os abismos entre as consciências - o objetivo confesso da comunicação.

Escrever bem é saber O QUE direi e o COMO direi - é aliar a mensagem e a estética - é anunciar as núpcias químicas entre uma boa história e as exigências da gramática - é além de tudo apresentar a obra como natural, espontânea, sem transparecer os esforços e o sofrimento.

E, claro, ser original - pois senão serás apenas autor (a) de mais um livro nas abarrotadas estantes.

É isso. Espero ter respondido a pergunta.

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