A Garganta da Serpente
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Leonardo Teixeira
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De reuniões e gerundismo
(Leonardo Teixeira)

Duas pragas se alastram na comunicação moderna. Uma é a mentira crucial em dizer que alguém está numa reunião, ao invés de dizer que não está, não quer receber ligações ou visitas. A outra praga dilacera os ouvidos e o bom português: gerundismo, mania de "estar falando" sempre em gerúndio. Essa idéia "vem sendo espalhada" por telefonistas e atendentes. Quem nunca ouviu alguma dessas atrocidades:

"O senhor pode estar respondendo a algumas perguntas? Pode estar confirmando os seus dados, que eu vou estar debitando na sua conta corrente. Vou estar encaminhando o seu pedido. Queira por gentileza estar aguardando que eu vou estar transferindo a ligação para o departamento responsável. Estaremos retornando a sua ligação..."

Parece-me que foi difundida a falsa impressão de status, para "estar-se gabando de forma chique e exuberante". Não há nada de engraçado em "estar agredindo" os ouvidos alheios. Dá uma vontade de explodir e gritar no telefone que "não se deve estar falando" desse jeito com ninguém "enquanto pessoa", "a nível de" Brasil, quiçá do mundo "inteiro por completo", todo ele.

O fato é que a maledicência lingüística saiu da orla competente do telemarketing e ganhou as ruas, os comércios, a televisão, os escritórios... Daqui alguns dias "vão estar chegando" em nossas casas, preenchendo as linhas dos nossos livros e não mais vamos dar conta de que estamos sendo sutilmente contaminados, até o patamar irreversível.

O leitor já "deve estar se dando" conta do quão terrível e lastimoso é o gerundismo. E já "deve estar sabendo" que Ricardo Freire e outros colunistas já gastaram páginas e páginas sobre o assunto. Pior mesmo é ser ludibriado pela frase "reunião".

Imagine a situação hipotética (Atenção! Todas as situações imaginárias são hipotéticas! Todas as coincidências são meras! Todos os enganos são ledos! Cuidado com o pleonasmo repetitivo. Ahã! Todo pleonasmo é repetitivo!) onde eu estava? Na situação hipotética, certo! Falta o dois pontos, aqui vai: pronto! Eis a situação: você necessita com urgência de um serviço prestado por uma pessoa de um escritório. Suas ligações são constantes a ponto de o atendente "estar reconhecendo" a sua voz. A pessoa sempre está em reunião. Como todo bom consumidor é insistente, você passa a freqüentar a sala de espera com determinada freqüência, tomando chás de cadeira, que é bom pra paciência (rimando: até o limite da anuência). Você estoura quando descobre que o tempo todo era passado para trás. Nunca houve reunião e a pessoa "sempre esteve entrando e saindo" pela porta dos fundos, com o especial propósito de "estar lhe evitando".

A casa caiu (se for no chão é pleonasmo, se for gíria é vício lingüístico!) e você faz um papelão (no sentido figurado) com cara de bobo (não no sentido figurado). Para isso, "vamos estar fazendo" um protesto contra essas duas pragas: a reunião e o gerundismo. Agora, dê-me licença que tenho uma reunião!

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