João Batista do Lago |
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A poesia entre a realidade e o real
(João Batista do Lago)
Talvez a questão mais complicada para a maioria dos atores da
Poesia esteja na complicada equação filosófica de realidade
e real. Mesmo aqueles a quem se podem considerar os mais evoluídos
são, quando em vez, traídos por essa matemática do pensamento
universal. O Poeta, como um pensador do (seu) mundo, isto é, fundamentado
nas suas percepções oníricas, intuitivas e sensitivas,
não foge a essa regra calculatória. Ele é resultado dessa
imbricação fenomênico-escatológica, ou seja, o poeta
sempre está a pensar entre dois campos imanentes e latentes na poesia:
a Filosofia e a Teologia. Mas isso, contudo, é muitíssimo pouco
- ou quase nada mesmo! - compreendido entre os principais agentes da
Poesia: poetas, escritores e críticos. Aliás, pode-se mesmo inferir,
que são raríssimos os que teriam essa compreendidade. Muitos entendem
que, são poetas, somente pelo fato de saberem, habilidosamente, concatenar
frases e rimas.
Que se me perdoem os puristas cheios de pruridos de literatura áulica.
E que são muitos espalhados por aí afora! Mas o que se vê,
e lê, por aí são, para dizer o máximo, uma certa
tipologia de prosa poética ou historietas contadas em formas vérsicas.
Mas saímos dizendo por aí que esses escritos são Poesias
(!), posto que, a sonoridade, a métrica e a rima, ou mesmo nenhuma destas
- muitas vezes -, nos agradam e nos elevam a alma e o espírito. É
exatamente neste ponto que erramos, ou seja, quando nos deixamos levar e enlevar
pelo simplesmente belo ou pela simplória estética musicálica
que balança no campo da nossa imaginação palavras, frases
e versos condicionados e condicionantes de efeito factível. E quando
nos perdemos nessa imaginação criadora, inerente em cada ser humano,
por mais humilde que o seja, perdemos a capacidade consciente e ciente de analisar,
compreender, sentir, e de, sobretudo, "pensar" a Poesia como
uma fonte de águas mais claras que a Filosofia ou a Teologia.
O que ouso, neste ponto, é salientar um posicionamento político,
ou seja, dizer com todas as letras que o conjunto de conceitos e práticas
que orientam a Poesia não se reduz, nem se traduz, tampouco re-traduz,
pura e simplesmente, ao estádio cognoscitivo do pensamento
do poeta. Tudo isto não passaria de um paradigma metodológico,
isto é, tudo isto não é mais que um obstáculo para
o processo consciente e ciente da construção da Poesia. O que
afirmo é que, aos meus olhos, a Poesia não pode e não deve
ser condicionada somente ao campo da realidade, mas deve, sobremodo,
ser criada, ou ser fazida, a partir do campo do
real. Realidade é Filosofia; é Teologia. Real é
o e-xistente; a práxis do ente no e-xistir do ser,
ou seja, é o real do sujeito na sua infra-estrutura. O que afirmo é
que, o poeta e a sua poesia são o resultado do pensamento da intuição
do seu instante. Ele abstrai duma realidade qualquer a fazedura do seu real:
eis aqui o resultado da equação.
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