A Garganta da Serpente
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A descoberta do mundo

(José Carlos Brandão)

"Campo Geral", de Guimarães Rosa, é a história da descoberta do mundo de Miguilim, um meninozinho de oito anos perdido num ponto perdido do sertão de Minas Gerais. Nem nome e sobrenome tinha, como os irmãos menores. Era só Miguilim. Saiu uma vez dali numa viagem de dias a cavalo para ser crismado e soube na cidade que o Mutum, o lugar onde ele morava, era bonito. Alguém de longe disse. Era como se Miguilim nunca tivesse visto o Mutum. A mãe achava a maior tristeza do mundo viver ali. Logo, era um lugar triste, não bonito.

Miguilim vai descobrindo o mundo. Começa pela morte. Uma vez tomou uma pedrada entre os olhos, "não podia enxergar, uma coisa quente e peguenta escorria-lhe da testa". Essa lembrança se mistura com outra, ele numa bacia, nu, e o pai esfaqueando um tatu, deixando-lhe o sangue escorrer por cima. "Para ele poder vingar", depois de uma doença brava.

Uma cachorrinha quase cega (é a primeira vez que se fala em cegueira?) que o pai dera para uns tropeiros. A primeira perda de Miguilim. E a imagem do pai, severo, violento, brigando com a mãe e o mundo. Miguilim de castigo porque não queria que o pai batesse na mãe. Não imaginaria nenhuma história dela com o tio, só não quer que sofra. Pensa na morte, tem medo de morrer sozinho, "queria que a gente todos morresse juntos..." Mais ladino o irmão menor Dito, que "não queria ir para o céu menino pequeno." Como uma premonição.

Miguilim que inventou que ia morrer. Ficou de cama, se deu dez dias para morrer. Não comia, definhava. Até que veio um curandeiro das vizinhanças, disse que ele ia morrer, mas daí a uns setenta anos. Miguilim quase ficou alegre, naquele mundinho dele, onde nunca acontecia nada.

Acontecia a morte. Como a do peste do Patori, filho de um vizinho. "Dito, você não gosta de conversar do Patori, que morreu?" Pois é, o Mutum era um lugar muito triste.

Um sonho era ver o mar. "Mãe, a gente então nunca vai poder ver o mar, nunca?" O Dito sempre dava as respostas certas: "A gente é no sertão." A tristeza é tanta que Miguilim não se conforma: "Mas às vezes eu queria avistar o mar, só para não ter uma tristeza..."

Difícil aprender a vida, gente. Doído só. "Ele bebia um golinho de velhice."

A descoberta maior era a da morte, danada de ruim. Não é que a danada levou até o Dito, o melhor de todos? "Como o pobre do meu filhinho era bonito..." Miguilim via mais a tristeza da mãe, para não ver a dele mesmo.

Um dia a violência do pai explode. Miguilim fez uma má-criação, o pai não se cansava de bater. Parecia que queria matar o pobre. Miguilim pega raiva do pai. Até que fica doente, agora está para morrer de verdade. Estranha que o pai se compadece dele, teria amor no coração de um bruto?

Quando Miguilim sara, vem a notícia da triste sina do pai. Tão bruto sob a brutalidade da vida, acabou matando alguém. Difícil de entender a vida, não? Vai se tornar mais difícil...

Por fim, chega um senhor de fora: vê que Miguilim aperta os olhos para ver, empresta-lhe os óculos. O problema de Miguilim era não enxergar o Mutum, para ver como era bonito. Era triste também, de tão pobre, mas era bonito... Miguilim vai para a cidade com o homem, tratar os olhos, estudar. Mas antes vê o Mutum, a beleza escondida. Muitas vezes a gente não vê a vida, para saber como é bonita.

Uma professora disse que um conto meu não era bom: não era acessível ao público. Talvez a sua linguagem lembrasse a de Guimarães Rosa. Podia não ser bom e podia ter esse defeito. Mas como ela disse, coitada, estava eliminando Guimarães Rosa da literatura. Não subestimem o leitor, não o chamem de burro. Algumas palavras de "Campo Geral" o dicionário não traz, alguma frases têm mais poesia do que significado, mas quanta substância humana no sangue daquela linguagem! O autor apresenta a história como um poema: está carregada de poesia. Não entreguei o autor de bandeja: quem não leu, deve ler, e quem já leu, pode recordar: há muita substância humana e beleza para nos comover na linguagem de Guimarães Rosa.

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