A Garganta da Serpente
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Sobre poesia

(Ivaldo Gomes)

(para Agostina)

Disse essa semana a um amigo que quando faltou ao homem o discurso, ele descobriu a poesia. A poesia é um salvo conduto para aqueles que são tocados por ela. Todos nós temos a capacidade de escrever poemas. Mas nem todos de senti-los. Na poesia nada é definitivo. Nada tem a ver com nada e só tem. É frente, verso, reverso, ante verso. Por mais diverso que seja o tema que ela utiliza, ela sempre diz sua mensagem. Fazer poesia é fácil. O difícil é deixá-la de lado. Nada que tenha comparação. Pois ela fala de todos os temas, inclusive alguns anátemas. Nenhum sistema aplaudiu de verdade a poesia. Poetas ainda são presos hoje em dia.

A poesia é tolerada pelo 'stablisment'. Chega-se ao ponto de se comprar alguns escribas e colocá-los na crista da onda, que logo passa e se descobre sem poesia. Um fiasco pra quem topa. Mas muitos poetas e poetizas tiveram maus e bons bocados nesses últimos dez mil anos. Acho um bom espaço de tempo para estabelecermos um arco de poemas e versos. Não vamos aqui desfiar os poetas ou os poemas dos últimos dez mil anos. Seria árduo e nada poético para esse texto. Que com certeza não é poesia. Pode até falar dela. Mas isso pouco importa. O que gostaria de dizer é que a poesia sempre foi, é e será uma das coisas mais sérias que eu mesmo já conheci.

Falo por experiência própria. De quem de vez em quando é apossado de uma vontade de escrever e dizer coisas que mesmo depois de ditas, lidas, relidas, parece mesmo que foi você que fez. Mas como fiz? Fiz, peguei o lápis, a máquina de escrever, o teclado do computador, a voz gravada no gravador e até imagens e sons para aparecer no Yotube. Não importa como eu diga, a mensagem da poesia é sempre a mesma. Palavras, sentidos, emoções. Um quebra cabeça que vai se montando com sentimentos e alma. Pensamento, momento, inspiração, meio ambiente, envolvente ou não. A poesia paira como incenso no ar. Ocupa e seu cheiro é inebriante.

Devemos levar mais a sério a poesia. Os poetas nem tanto. Eles são uns farsantes como bem disse Fernando Pessoa. Mas acreditem, os poetas são tão imprescindíveis a esse mundo, como o horizonte ao céu. Poetas são como costureiras que costuram um cordão que liga todas as coisas as outras. É um costureiro das palavras, dos sentimentos, dos ditos e não ditos, de todos os versos e palavras já escritas como e com forma de poema. Poema é sem esquema. Não tem regras e possui todas. Nunca diga o que não sente, pois a falsidade fica registrada e isso não é poesia.

Temos todas as capacidades do mundo. Em algum canto da gente vive um ditador, um medíocre, um assassino, um crente, um monge, um bonzinho, um compreensivo, um justo, um certo e um errado. Temos todas as capacidades de todos. Apenas, por educação, formação, medo, limitação, falta de condição, podemos ou não desenvolver qualquer uma dessas capacidades. E uma delas é o de externar nossos sentimentos em forma de poesia. Aqui a experiência é fatal. A poesia, quando tocada, é um doce veneno que quanto mais você tem mais a quer por perto. Poesia tem tudo a ver com musa, com motivo. E como temos musas e motivos a nos inspirar!

Por tanto quando você se deparar com um poema, escrito em qualquer lugar, com qualquer material ou forma, você logo saberá que está diante dela, na sua presença. Sabe daquelas coisas que você não compreende o que seja, mas quando a vê sabe na hora que era aquilo que você gostaria de ter visto, vivido, sentido? É pura emoção. Você sabia que poemas são como meizinhas que aliviam a alma e as engrandece? Ela puxa pelo lado bom da vida. Até os lamentosos poemas, ajudam a refletir sobre os lamentos e os problemas dessa vida. A poesia é como um bálsamo para aqueles que têm olhos, olfato, tato e audição. Uma degustação.

Então ficamos combinados assim: poesia é a coisa mais seria que existe nos dias de hoje.

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