A Garganta da Serpente
Artigos Envenenados textos sobre literatura
  • aumentar a fonte
  • diminuir a fonte
  • versão para impressão
  • recomende esta página

Jornalismo e Literatura: dois irmãos que se rejeitam

(Hélio Consolaro)

"A diferença entre o jornalismo e a literatura é que o jornalismo é ilegível e a literatura não é lida." Oscar Wilde

No início, todos os conhecimentos humanos ficavam juntos, não havia a especialização. A Matemática, por exemplo, era objeto de estudo da Filosofia. No setor da informação, acontecia o mesmo.

Emile Boivin, em sua Histoire du Jornalisme afirma que Homero foi o primeiro repórter que a história da humanidade registra ao narrar em Ilíada os combates gregos e troianos. No entanto, com a evolução da mídia, sabe-se que a obra grega é Literatura, nada tem a ver com o jornalismo na concepção moderna do termo. No Brasil, as manifestações literárias do primeiro século estão mais para o jornalismo que para a literatura, embora seja um capítulo dos estudos de Literatura Brasileira, pois começa com a Carta de Pero Vaz de Caminha, que é um cronista do reino, e passa por relatos de viajantes.

Nessa perspectiva, muitos teóricos não consideram Os Sertões, de Euclides da Cunha, uma obra literária, pois ela está mais para um tratado sociológico (real) do que para o artístico (ficcional). Como não seria literatura no sentido estrito os livros de Fernando Morais, como A Ilha, Chatô, Corações Sujos.

Alceu de Amoroso Lima, o Tristão de Ataíde, considerava o jornalismo um gênero literário. Talvez não diria isso se estivesse alcançado nossos dias, que se faz um jornalismo escrito meramente factual, querendo erroneamente concorrer com outras mídias.

Na verdade, o jornalista é o profissional do seu tempo, vive o cotidiano efêmero, com prazo de validade; enquanto o poeta, o romancista, o ensaísta está no plano da perenidade, querendo ser eterno.

Num passado recente, jornalismo e literatura, já considerados gêneros diferentes, estiveram de mãos dadas, pois todo jornalista era um escritor em potencial. É só se lembrar do folhetim no Rio de Janeiro, em que os livros, como Memórias de um Sargento de Milícias, de Manuel Antônio de Almeida, eram publicados nos jornais, que eram semanários, em capítulos, a exemplo das novelas da televisão na atualidade.

Afirmam Flora Bender e Ilka Laurito no livro Crônica: História, Teoria e Prática que o folhetim era um espaço livre no rodapé do jornal, destinado a entreter o leitor e a dar-lhe uma pausa de descanso à enxurrada de notícias graves e pesadas que ocupavam as páginas dos jornais. Com o tempo, o folhetim passou a ser um atrativo para leitores, passando a publicar ficção, capítulos de livros.

Na década de 30, em pleno século 20, Vidas Secas teve assim sua primeira publicação. Daí surgiu a preocupação de Graciliano Ramos em fazer da obra uma novela, cujos capítulos podem ser lidos separadamente, para que o leitor de jornal não ficasse prejudicado.

JORNALISTA E ESCRITOR.:

O escritor francês Gustave Flaubert (1821-1880) escreveu: "Considero como uma das felicidades de minha vida não escrever nos jornais; isto faz mal a meu bolso, mas faz bem à minha consciência". Já Marcel Proust (1871-1922), também francês: "O que censuro aos jornais é fazermos prestar atenção todos os dias a coisas insignificantes, ao passo que nós lemos três ou quatro vezes na vida os livros em que há coisas essenciais".

Pelas citações, percebe-se que o escritor não gosta dos jornais, enquanto os jornalistas não se valorizam tanto se o guia das reflexões for Millôr Fernandes: "Em qualquer roda é fácil reconhecer um jornalista: é o que está falando mal do jornalismo". Mas nem sempre foi assim.

Paulo Mendes Campos dizia que não acreditava no talento de escritor, sem que ele tivesse passado pelo jornalismo. Machado de Assis foi feito escritor nas redações de jornal, escrevendo e convivendo com a intelectualidade da época, conseguiu ser autodidata. De certa forma, Paulo Mendes Campos tem razão, pois as redações de jornal foram a forja de bons escritores brasileiros. Gabriel García Márquez (1928), prêmio Nobel de Literatura em 1982, escritor colombiano, é um exemplo de imiscuição positiva de literatura e jornalismo.

Na verdade, o jornalismo, quando não havia formação específica, era povoado de escritores, porque viver de publicar livros no Brasil é mérito de poucos. O jornalismo sempre foi a prostituta, quando a esposa amada era a literatura. Assim aconteceram aos cronistas, que eram escritores à procura de sobrevivência. Talvez resida aí a razão do pensamento de Millôr Fernandes sobre jornalista, porque o profissional queria mesmo é ser escritor. Pela necessidade de sobrevivência é que Clarice Lispector também foi cronista.

Por isso, crônica foi sempre considerada um gênero menor, em tamanho e mais ligado ao vil metal. Rubem Braga é um exemplo raro de jornalista-cronista, e só praticou esse gênero, e está na História da Literatura Brasileira por causa dele.

Geralmente, o cronista era romancista, poeta, teatrólogo e escrevia crônicas para sobreviver: Machado de Assis, José de Alencar, Olavo Bilac, Vinícius de Morais, Carlos Drummond de Andrade. Como Arnaldo Jabor, que é um cineasta que virou cronista.

A crônica foi o que sobrou de literatura no jornal depois que os jornalistas, com formação específica, criaram a reserva de mercado, intelectuais e escritores fugiram dos jornais, mas ainda assim o resquício, o cronista, é visto como um elemento estranho nas redações. Um mal necessário.

JORNAL PRECISA SER INTERPRETATIVO.:

A volta ao passado é impossível, nem mesmo seria inteligente, pois o jornalismo brasileiro, que era mais europeu, americanizou-se, mas ainda é possível que o nível intelectual dos jornais se eleve, porque ele precisa urgentemente se diferenciar da mídia, como televisão internet.

Nunca mais irá acontecer um Correio Braziliense (1808-1822), de Hipólito José da Costa (1774-1823), que era feito na Inglaterra e só chegava ao Rio de Janeiro depois de 30 dias. Era na verdade um livro. Transformar o jornal tão lerdo quanto uma revista ou um livro seria uma temeridade, não há mercado para isso, mas ele pode ser mais substancioso, com mais conteúdo interpretativo da realidade que noticia.

As notícias são dadas no rádio, na tevê, na internet, mas dificilmente se vê nesses meios a interpretação dele, a não ser na tevê paga. E é disso que o leitor está precisando, encontrar a pimenta, um tempero mais carregado, o diferencial no prato chamado jornal. Procura-se no meio uma análise política, uma crônica, um texto mais trabalhado, o lado do noticiário que o cidadão não percebeu. Por esse lado, a intelectualidade e a literatura têm muito que contribuir com o jornalismo.


REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS.:
  • MENEZES, Fagundes. Jornalismo e Literatura, 1ª edição. Rio de Janeiro, Editora Razão Cultural, 1997.
  • BENDER, Flora e LAURITO Ilka. Crônica: história, teoria e prática, 1ª edição. São Paulo, Editora Scipione, 1993.
  • 3818 visitas desde 27/01/2006
Copyright © 1999-2017 - A Garganta da Serpente