A Garganta da Serpente
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Quarto e renda própria (mulher na literatura)

(Hélio Consolaro)

A questão do feminino na literatura é bem polêmica. Se existe diferença de ser entre os dois sexos, essa diferença deve se manifestar também no jeito de ver o mundo. Numa conversa, a acadêmica Maria Luzia Villela me revelou que uma leitora de seu conto publicado no livro Experimentânea 6 - Na rede da varanda - lhe dissera que o texto tinha um olhar masculino.

Há escritoras que não aceitam o tratamento de poetisa, porque dizem que a poesia não tem sexo, querem ser chamadas de poetas. Como já li também nalgum livro, não sei se foi em Freud ou Lacan que o sexo não chega a se manifestar no inconsciente. Fiz uma busca nos grifos de minhas leituras, não encontrei nada. Como sou cronista, não defendo teses, fica aí o registro em defesa da confreira, sem compromisso com a ciência.

Que tal questionar mais o tema? A escritora e professora universitária Adriana Lisboa escreveu que se há uma coloração específica, um olhar privilegiado das mulheres, como definir isso saindo da abstração, com exemplos concretos? E estendo o pensamento dela: se os dois gêneros moram em pessoas de ambos os sexos e falam em nós, independente de ser homem ou mulher, como fazer essa distinção em textos? É bem provável que o lado masculino de Maria Luzia Villela aflorou naquele conto, se a leitora tiver alguma razão.

Saindo da virtualidade dos textos para ficar na realidade do mundo feminino, ser mulher e ser escritora já foi mais difícil. Cora Coralina quem o diga, precisou esperar o marido falecer para se mostrar como escritora, não lhe era permitido ter visibilidade como tal. Ela não pôde nem ser ao menos uma escritora senhora, como Maria Luzia.

Clarice Lispector quando surgiu no cenário da literatura brasileira, dominado pelos escritores nordestinos, como Graciliano Ramos, José Lins do Rego, Jorge Amado, suas obras foram tratadas como literatura menor, uma espécie de auto-ajuda feminina. Hoje, ao lado de Machado de Assis, é a escritora brasileira mais estudada em universidades estrangeiras.

Na Academia Brasileira de Letras, só em 1977, a primeira mulher adentrou seus portais, era Raquel de Queirós. E a eleição da primeira presidenta só ocorreu em 1996, com Nélida Piñon.

A escritora mulher precisou conquistar seu espaço aos empurrões. Às vezes, rebelde e chamada de nomes nada agradáveis pela sociedade conservadora. Não estava nela apenas a literatura, com sua voz própria, mas também a feminista. Para fazer isso, precisou ter quarto para si e renda própria, como pregava a escritora inglesa Virgínia Woolf (1882-1941).

(22.02.08)

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