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Hélio Consolaro
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Fazer haicai
(Hélio Consolaro)

Há poetas que gostam de fazer poemas curtos, com os modernistas da primeira geração. Entre nós, eles se chamam de poemas-piada; trovas ou quadrinhas, que possuem uma estrofe de quatro versos redondilhos maiores (sete sílabas).

Como estamos em plena comemoração dos 100 anos da imigração japonesa no Brasil, comento hoje o gênero haicai, que é também uma composição poética bem curtinha de estrutura rígida.

Antes, vou contar um fato acontecido na praça João Pessoa, Araçatuba, em maio de 2005. A dançarina Luciana Bortuleto, de São Paulo, contratada pelo Sesc, veio apresentar o espetáculo A Toca, mas havia uma explicação no cartaz de divulgação: Às performances realizadas é adicionada a idéia da literatura haicai

A praça estava cheia à espera do fino biscoito. A apresentação durou cinco minutos. O Beto do Sesc e o Fernando Ítavo, da Academia Stella Maris, bufavam de raiva em volta do palco. Luciana resolveu bisar o espetáculo, mais cinco minutos. Total: 10 minutos. Como poderia haver uma apresentação longa se a composição poética era de gênero tão curto!

E assim, ficamos todos no Café da Praça, como o haicai do Kaflanko, para alegria do Paulo e da Maria, proprietários da cantina: "Uma cerveja/ duas, cinco cervejas/ mas só três versos".

Haicai é um poema de origem japonesa, que chegou ao Brasil no início do século 20 (com a imigração) e hoje conta com muitos praticantes e estudiosos brasileiros, como Guilherme de Almeida. No Japão, e na maioria dos países do mundo, é conhecido como haiku.

O haicai japonês, clássico, obedece a quatro regras: 1) dezessete sílabas, divididas em três versos: cinco, sete e cinco. No Brasil, costuma-se a chamar de haicai qualquer poema curto; 2) Contém alguma referência à natureza, diferente da natureza humana; 3) refere-se a um evento particular, ou seja, não é uma generalização; 4) apresenta tal evento como acontecendo agora, e não no passado.

Exemplo: tema - jacarandá. Jacarandá em flor:/ Saudade de minha mãe / que gostava de roxo. Autor: H. Masuda Goga.

Exemplo de poema curto que não é haicai: título - Saudade (haicai não tem título). Ah! Triste lembrança: / Saudade de minha mãe / que gostava de roxo.

No primeiro poema, o kigo (o elemento da natureza) é o centro do poema, ou seja, jacarandá, que dispara as emoções. No segundo, a cor roxa é apenas um enfeite, uma coisa secundária; texto poético recheado de sentimentalismo vazio.

Advertem os tradicionalistas: se quiser fazer poemas curtos, com tiradinhas, aforismos, tudo bem, são lindos, mas não podem ser chamados de haicai. Para se aprofundar no assunto: www.kakinet.com/caqui/nyumon.htm

(13.07.08)

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