A Garganta da Serpente
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Hélio Consolaro
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A inspiração vem de onde?
(Hélio Consolaro)

As pessoas estão sempre me perguntando como fazer para escrever bem, como se houvesse uma receita mágica. Tenho dito e redito que ler faz bem e escrever sempre deve ser um hábito.

O escultor não faz uma bela estatueta na primeira vez em que entra em contato com o barro. No começo, ele é dominado pelo barro, sua obra não tem elasticidade. O belo só vai aparecer quando o escultor dominar o barro, fazer dele o que desejar.

Não é diferente com a escrita. E se o texto for literário (artístico), liberar-se é uma necessidade, não só para o escritor, mas para todos os artistas. Outro dia um amigo me confessou:

- Cara, tomei vodca e produzi alguns textos irreconhecíveis, nem pareciam ser meus de tão belos...

Não estou aqui estimulando o uso de drogas, mas às vezes elas são necessárias na criação se a pessoa for muito travada por dentro.

Soltar a franga, produzir sem censura, não ter medo do ridículo, não se preocupar se for chamado de louco deve ser preocupação de todo artista. Não existe nada mais anticriativo do que o preconceito e as convenções sociais. Desvencilhar-se do censor interno é uma necessidade.

Depois de o texto (ou o esboço da obra) estar definido, do transe criativo encerrado, o artista vai chamar a razão para configurá-lo com mais rigor, trabalhando a forma. Cortar obsessivamente palavras, como escreveu Blaise Pascal: "Fiz esta carta mais longa porque não tive tempo de fazê-la curta".

Manuel Bandeira demorou 20 anos para publicar Pasárgada. Mário de Andrade escreveu Macunaíma em 15 dias, demorou dois anos para publicá-lo. O artista burila, tira as imperfeições, vai enfeitando a sua obra, como a bordadeira o faz com os tecidos. Você, caro leitor, não precisa chegar a este exagero, mas deixar o texto dormir no HD de seu computador faz muito bem. Até acordá-lo para outra revisão.

Outra pergunta que sempre surge: De onde vem a inspiração? Esquece-se o inquiridor da transpiração. Não desejo a esterilidade parnasiana, mas vejo o emocionalismo romântico de soslaio.

Vou reproduzir a letra da música "Transpiração", de Pedro Luís, da banda carioca "A Parede", cantada por Ney Matogrosso, porque ela é muito bela e não merece ser parafraseada:

A inspiração vem de onde/ Pergunta pra mim alguém/ Respondo talvez de longe/ De avião, barco ou ponte/Vem com meu bem de Belém/ Vem com você nesse trem/Nas entrelinhas de um livro/ Da morte de um ser vivo/Das veias de um coração/ Vem de um gesto preciso/Vem de um amor, vem do riso/ Vem por alguma razão/Vem pelo sim, pelo não/ Vem pelo mar gaivota/Vem pelos bichos da mata/ Vem lá do céu, vem do chão/Vem da medida exata/ Vem dentro da tua carta/Vem do Azerbaijão/ Vem pela transpiração/[...]/ Vem da tristeza, alegria/ Do canto da cotovia/Vem do luar do sertão/ Vem de uma noite fria/Vem olha só quem diria/ Vem pelo raio e trovão/
No beijo dessa paixão. [...]


E eu resumo: a inspiração vem da vida. A arte encanta com o frescor do olhar do artista, daquele jeito singular de ver o mundo, do estranhamento.

(16.05.10)

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