Hélio Consolaro |
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Saber português e saber gramática
(Hélio Consolaro)
Há ainda uma certa confusão entre "saber português"
e "saber Gramática". Não são coisas diferentes,
mas são saberes distintos. Existem pessoas que falam e escrevem muito
bem, mas sabem quase nada de Gramática. Aliás, os escritores,
geralmente, querem distância dos compêndios gramaticais.
As pessoas que lêem muito e vivem num meio cultural muito bom, elas dominam
a gramaticalidade (o princípio organizador) da modalidade culta de nossa
língua. Elas sabem bem o português culto, mas não têm
memorizada a gramática normativa, aplicam-na intuitivamente. Dizem "sei
português por ouvido".
Saber as regras gramaticais de cor ajuda a escrever bem? Perguntam as pessoas
mais distantes da luta com a palavra. As regras pertencem à gramática
normativa, como se fosse um código de leis, ela disciplina e policia
o uso da modalidade culta da língua. Por ser uma imposição,
ela dificulta a criatividade, daí a rejeição por ela, principalmente
a partir do Modernismo.
Respondendo. Se a pessoa já souber como se estrutura um texto, dominar
a estruturação de parágrafos, conhecer os vários
gêneros literários ou não, enfim, é "leiturizada",
saber bem as regras gramaticais seria uma oportunidade de dar um melhor acabamento
a seu texto.
Se a pessoa não for "leiturizada", decorar regras será
um mero exercício escolar, às vezes exigido bestamente em concursos
públicos. Essa pessoa sabe Gramática mas não sabe o português
escrito, modalidade culta. Sempre digo a meus alunos, a pessoa só pode
ser considerada alfabetizada quando ela conseguir pôr no papel o que pensa.
Como sempre escrevi, às vezes, fico a pensar: como um professor de Português
que nunca escreveu nada, a não ser redações escolares no
seu tempo de aluno, consegue ensinar a arte de escrever, já que ele não
tem a experiência do trabalho com a palavra. Não seria o mesmo
de ensinar Música sem nunca ter tocado um instrumento na vida?
Gramática, leitura e produção de textos
Sem conhecimentos gramaticais não daria para falar nem escrever. O analfabeto
conhece a gramática de sua língua, como ela se organiza para expressar
pensamentos, sentimentos e emoções, do contrário não
saberia falar. O estudo gramatical, ensinado na escola, é a Gramática
Normativa, que impõe regras da língua padrão a quem quer
escrevê-la.
Os estudos de Fonologia nos ajudam a resolver problemas de ortografia e acentuação
e como explorar expressivamente a linguagem poética. Conhecendo os fonemas,
aliteração e assonância são facilmente identificadas
ou construídas nos poemas. O mesmo acontece com as rimas:
"Batem pausadamente as patas compassadas." (Olavo Bilac). Note como
o jogo com as consoantes e vogais imprime ao verso um ritmo que sugere o próprio
movimento descrito.
"Suceda a treva à luz/ Vale a noite de crepe a curva do horizonte;/
em véus de opala a madrugada aponte/ nos céus azuis." (Olavo
Bilac). Rima bem clara entre horizonte/aponte. Já em luz/azuis, na escrita
parece que a rima está prejudicada, mas lendo em voz alta, encontramos
sonoridade, pois se escreve "luz" mas se fala /luis/. Então,
a rima se concretiza perfeitamente: luis/azuis.
Conhecendo gramática, a pessoa constrói seus textos com mais expressividade.
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