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A Garganta da Serpente
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Internet atrapalha a escrita e a leitura?

(Hélio Consolaro)

Os avessos a mudanças dizem que a internet está impedindo o jovem de ler e escrever. Só pode dizer isso quem não conhece o novo meio.

Ao contrário, a Internet estimula as pessoas a se comunicarem através da escrita, faz com que surja uma linguagem digital e levanta questões sobre a língua portuguesa. E-mails substituíram as cartas; mensagens instantâneas pelo ICQ ou MSN são os bilhetes modernos.

Teclo com meus alunos; eles usam o internetês e eu o português por extenso. Nunca vi em provas e redações as tradicionais abreviaturas usadas nas mensagens instantâneas. Mal comparando, pois não tiveram alcance tão massivo como a internet, o código Morse e a taquigrafia não prejudicaram o português.

Segundo a Revista E, do Sesc, edição de fevereiro de 2002, a Internet e todos os seus corolários tecnológicos provocaram uma espécie de renascimento da escrita, ressurgindo o comportamento epistolar digital ou "recaída" na palavra - afirma o escritor Fábio Lucas. Nunca se usou tanto a escrita como nestes tempos on line.

"Os milhares de jovens que nos finais de tarde ou madrugadas adentro trocam impressões e segredos nas salas de bate-papo, dando as costas ao resto da família, adotando o papel de infomaníacos de última cepa, mal sabem que estão repetindo o fervor epistolar que outrora acometeu seus próprios avós e bisavós, quando tinham somente o papel da carta para trocar promessas com a amada ou segredos com queridos amigos distantes."

"O que há é uma linguagem elíptica", pondera o ensaísta literário Fábio Lucas. "A própria tecnologia da imagem criou uma espécie de narrativa descontínua, o videoclipe, que influenciou a manifestação poética de muitos autores de hoje que inovam nessa forma relâmpago pela qual as palavras surgem já no seu esplendor. Não acopladas numa forma sentencial mais prolongada ou, então, em uma sintaxe mais complexa."

A Internet trouxe de volta aqueles que fugiram da escrita. Quem jamais havia escrito algo além de seus nomes próprios foi obrigado a elaborar uma mensagem para seu chefe ou namorada. Ou para reclamar ao fabricante a inoperância da sua recém-adquirida geladeira. De repente, a palavra articulada em frases tornou-se a chave para ganhar tempo.

Na opinião do lingüista Marcos Bagno, os sinais gráficos ou radicais abreviaturas comuns nos textos se inserem em um cenário perfeitamente compreensível. As abreviações tentam ganhar tempo na comunicação digital, uma aproximação do tempo da fala real.

E diz Bagno: "A Internet é uma escrita virtual, uma fala digitalizada, uma mescla das duas modalidades da língua. O conteúdo só interessa a quem escreve e a quem lê. Assim como é inútil tentar corrigir a língua falada, também me parece inútil tentar corrigir a língua escrita na web, porque ela é fugaz, efêmera e se dissipa no ar, porque sequer chega a ser impressa".

Nas empresas, o advento do e-mail fez os departamentos de recursos humanos se preocuparem com a redação de seus funcionários, além de alertá-los dos cuidados com a espontaneidade excessiva nos textos. Daí a importância de as pessoas estarem atentas ao que estão colocando na tela do computador.

O e-mail tornou mais fácil a comunicação entre as pessoas. E esquentou também as seções de cartas de revistas e jornais. Esta Folha publicava, antes do advento da internet, uma carta de leitor por dia. Ela era deixada no balcão do jornal ou mandada pelo correio. Seu texto era longo, parecido com um artigo e, às vezes, faltava carta para publicar.

Hoje, os leitores participam mais da coluna de cartas, pois é só se sentar a um computador conectado à internet e passar um e-mail para a Coluna dos Leitores. As mensagens são mais curtas. E há uma fila delas na fila de espera de publicação. Ficou mais fácil a interação e a comunicação com o jornal.

Há muito de medo do novo e saudosismo naqueles que rejeitam ou criticam a internet. Foi assim quando surgiu a garrafa térmica, o fogão a gás, o microondas, para ficar apenas na cozinha. Há ainda gente que coa café em coador de pano! A sociedade pluralista é boa porque cada um se ajeita como pode.

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