A Garganta da Serpente
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Geraldo Ramiere
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Entre a nau e a deriva - Resposta À Simone Barbariz
(Geraldo Ramiere)

Não raras vezes me assusto com a facilidade que certas questões merecedoras de uma abordagem crítica ampla e fundamentada são magicamente resumidas em alguns poucos conceitos e sentenças, quase verdades absolutas, grande parte oriundas de um enfoque redundante, unilateral, determinista e generalizador, limitados dentro de sua própria superficialidade. E infelizmente creio que esse foi o principal equívoco de Simone Barbariz em seu último artigo, intitulado "Mediocridade na Literatura Internáutica", no qual faz severas críticas à dita "poesia virtual" e certas atitudes de seus "adeptos".

Até certo ponto compreendendo a postura da autora, já que vejo seu texto muito mais como um desabafo do que artigo de fato, provavelmente fruto de uma indignação particular. Contudo, acredito que lhe faltou um pouco mais de responsabilidade em suas palavras (talvez o mesmo ocorreu com os internautas que ela tanto critica), necessária a qualquer opinião escrita, especialmente para alguém que se demonstra ser tão comprometida com projetos culturais, mesmo nesse caso. E esse foi, ao meu ver, seu maior erro: reduzir toda uma imensa complexidade cultural que é a "Literatura Internáutica" (isto é, se for realmente possível empregar tal termo) a uma visão gerada apenas de sua experiência pessoal, restrita às fronteiras do seu cotidiano. Dividindo a "classe" dos poetas em "virtuais" e "reais", Simone Barbariz caiu na velha bipolarização maniqueísta das coisas, tipo "bem e mal", "certo e errado", "sagrado e profano", "inteligentes e burros", "flamenguistas e vascaínos"..., "criando" dois grupos supostamente "antagônicos", sem disfarçar que lado defende. Assim, todos os poetas que expõem seus textos na internet seriam os "virtuais" (talvez espectros malévolos?), e os outros (quais?) seriam os "reais", os de carne e osso, os verdadeiros, os que têm "nome"; não se leva em conta a pluralidade cultural da nossa própria literatura, ainda mais num espaço tão imenso (talvez não para ela) como a internet.

Segundo a autora, "os poemas dos poetas 'virtuais' são sempre (grifo meu) ovacionados por uma crítica burra e puxa-saco de outros tantos poetas 'virtuais'; quando um poema de um poeta 'real' participante da lista vai para análise, sempre metem o malho no poema e, pior, muitas vezes, o poema que está sendo esculhambado pelos 'virtuais', é um poema já premiado em alguma academia literária ou secretaria de Cultura ou associações de poetas, etc". Eis um dos aforismos de Simone Barbariz! Não há qualquer explicação, nenhum por quê, apenas certezas, totais e inquestionáveis; e, ainda segundo sua opinião, a única causa para esse suposto "fenômeno" (termo usado por ela) é a inveja. Isso mesmo! Todos os poetas "virtuais" seriam nada mais que invejosos, escondidos nas sombras, maquinando (talvez em conjunto) ataques (terroristas?) contra os honoráveis poetas "reais" (será que Bin Laden está por trás disso também?). Além do mais, quem foi que disse que prêmio de academia literária ou de outra instituição do gênero é sinônimo de inviolabilidade santa? Não é porque um poema foi aplaudido por uma suposta "maioria", todas as outras pessoas (não necessariamente a "minoria") são obrigadas a também gostarem do poema, como se fossem fantoches biônicos. Autoritarismo tem limites!

E antes que digam que sou apenas "mais um invejoso com dor-de-cotovelo", gostaria de esclarecer que não escrevi este artigo para a defesa de qualquer "união internáutica", já que não sou de nenhum clã ou partido para me sentir ofendido com alguma crítica (além do quê, só bem recentemente resolvi expor alguns trabalhos meus em sites). O que me impeliu a escrever foi outra coisa: irritação com a arrogância. A arrogância nesse texto (não li outros) de Simone Barbariz está em taxar tudo, ignorando qualquer possível antítese ou diversidade, como se a "verdade" estivesse com ela. Desse modo, os poemas dos "internautas" seriam ("em sua grande maioria) "ruins", e ponto final. Novamente não há explicações, só dogmas. Particularmente, não gostei dos poemas que li de Simone Barbariz (como do mesmo modo ela poderá não gostar dos meus), talvez pelo já tão batido tom romanesco infantil que observo neles; porém, seria um absurdo se eu, no alto de uma falsa "onipotência", ignorando toda a particularidade criativa da autora, simplesmente os rotulasse com um frio adjetivo: ruins! Para mim isso não é crítica literária, e sim rancor.

Entretanto, o que mais me entristeceu na postura adotada por Simone Barbariz em seu texto, foi perceber seu desconhecimento acerca do que estava falando; pois, ao ver dela, "está se formando um lobby de poetas virtuais", que com suas práticas "invejosas" trariam "conseqüências drásticas para a nossa já tão sofrida e violentada literatura". Lobby? Num país como o nosso, onde a literatura (tanto em produção como consumo) é refém de um extremo elitismo, regido principalmente por corporações de "literatos" fechados em si mesmos e por uma "lógica" de mercado que vê a literatura nada mais como outra forma de se ganhar dinheiro, não consigo enxergar nos que expõem sua arte na internet (tanto a poesia como as demais expressões) como uma "facção", mas sim como pessoas que buscam fugir dessa asfixia que é nosso mundo atual, querendo apenas dizer o que pensam, sem qualquer censura ou castração; e de forma alguma pretendo questionar esse direito de Simone Barbariz, mas acredito que ela também não pode querer tirar o dos outros (não é apenas ela que tem o direito de ser "revoltada"). E que "conseqüências drásticas" seriam essas (ela não diz)? O que pode ser mais angustiante do que fazer literatura num país de analfabetos (que Paulo Freire me desculpe pelo termo) e de saber que o que vale não é o talento que se possuí, mas sim o dinheiro e/ou as influências que se têm? A "literatura brasileira" está morrendo por aí, nas mortes silenciosas dos que são destruídos muitos antes de poder exercitá-la, morrendo muito antes de nascer.

Já estou cansado de ver tudo dividido, tudo separado por um muro invisível que ninguém sabe quem construiu, como se houvesse apenas duas opções para os poetas (e demais artistas) da contemporaneidade: embarcar na primeira "nau" que encontrar pela frente, podendo ser um mero barquinho a um iate de marfim (que Drummond me perdoe pelo plágio), vestindo o uniforme de sua tripulação e defendendo com sangue sua bandeira, ou se aventurar pelas correntezas por aí, tal qual "fazem" os internautas (ou será que a internet é uma "Arca de Noé" pós-moderna?), à deriva, sem medo de se afogar. Não acredito nessa (nem em outra) dualidade. Mas creio nas infinitas possibilidades existentes na prática literária e em seu conhecimento (ainda mais com o auxílio da internet), especialmente a obtenção de algo tão escasso nestes "nossos" tempos de consumismos, violências, imagens e reality shows: o diálogo. Espero que Simone Barbariz me compreenda.

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