A Garganta da Serpente
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Pós-modernismo e globalização poética

(Frassino Machado)

Todos sabemos bem que hoje em dia, no mundo da "expressão poético-literária", o modelo formal do texto - ou expressão comunicativa - encontra-se sobejamente subalternizado. Qualquer escritor/poeta que se preze e, nomeadamente, aquele que conquistou lugar ao sol no "mundo do mercado literário" não tem a mínima preocupação pela forma poética. Toda e qualquer expressão escrita comum, mesmo a mais bizarra, é utilizada para veicular "sentimentos tidos como poéticos". A tal ponto chegou esta secundarização que, para espanto de todos ou até não, chega-se a desprezar o cuidado semântico, metafórico e, mesmo, gramatical !

É uma postura com intenção reconhecidamente pos-modernista que, quanto a nós, se assume libertária, para não dizer anárquica. Sinteticamente, na mais generalizada expressão literária, apenas uma preocupação impera: importa "dar nas vistas", "impressionar", "espantar". Eis a poesia que, bem vistas as coisas, constitui no nosso tempo um fenómeno proporcional às correntes artísticas dominantes, em que um "expressionismo piroso" marca a sua maior influência. Poder-se-á afirmar mesmo, no dizer de um pensador contemporâneo, "vivemos a grande maré da cultura inculta". Ou seja, para se chegar culturalmente - neste caso artisticamente - à maior quantidade possível de "consumidores" torna-se fundamental que todo o escritor/poeta se vista da roupagem o mais generalizada possível (eu direi vulgarizada) para que a sua mensagem se torne abrangente a todas as classes de potenciais leitores/admiradores...

Sendo assim poderemos dizer que, no tocante à forma poética estamos conversados: à priori toda a expressão escrita é válida em si mesma desde que sirva de atracção e seja apelativa. Logo toda a arte poética aposta - no lugar da essência e da forma - na emocionalidade, no sentimento figurativo, no instinto e na ficção do movimento, do som e da luz. Isto é, em última instância, há que apostar no apriorismo da " palavra ". Da palavra singular. Esta, por si mesma - tentando justificar e dominar o espaço e o tempo - impõe-se a todos os fenómenos. Quer dizer: a palavra conquistou o primado da expressão artística poética. Dito doutra forma: a palavra venceu o verso e o poema e, daqui, substituiu a poesia.

O que acabámos de expor é apenas, e só, a forma como visualizamos o momento da Poesia actual que, quer queiramos quer não, prolifera em todas as línguas e culturas como resultante da transformação universal dos meios de comunicação de massas. Aquilo a que chamamos de "globalização" invadiu sem limites a arte poética tornando-a mais popular, sim, mas também mais libertária e volátil.

O que há a fazer ? Qual deverá ser a resposta de todo aquele que se considera justamente como poeta ? Deverá deixar-se arrastar pela "corrente global" sem critério formal considerado ou terá de se qualificar cada vez mais, privilegiando a sua própria expressão poética e literária ? Deverá jogar, por mero instinto, no "Maria vai com as outras" ou apostar fortemente na sua própria identidade? É este o grande desafio, na nossa opinião, que o poeta tem de cumprir e arriscar. Será uma atitude de resistência que, mesmo não tendo à partida efeitos imediatos, pelo seu próprio fundamento e convicção conquistará, a todo o momento, o seu inquestionável mérito.

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