A Garganta da Serpente
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A emergência da língua

(Fabio de Riggi)

À exceção do Esperanto, em respeito ao trabalho do humanista Lázaro Zamenhof, todo idioma em uso é passível de alterações que visam à adaptação do mesmo ao ambiente e ao momento em que ele é utilizado, sejam elas neologismos, adaptações gramaticais ou mesmo importações de termos de outros idiomas. Daí as denominações de língua viva e língua morta, sendo, portanto, inevitável, a constante variação de uma língua enquanto viva.

Restringindo-se o estudo à língua portuguesa do Brasil e acrescentando-se que a constante variação do idioma depende exclusivamente de dois elementos, sendo a cultura ou o conhecimento, o estático que interfere pela sua ausência ou presença, e o dinâmico, o povo, que cria mais ou menos de acordo com o grau de interação com o primeiro fator num determinado momento histórico, tem-se que as variações de tipo ocorridas no país deveriam também se dar por seu povo e cultura, como constituí a regra tão exaltada por Guimarães Rosa, grande estudioso da fala popular.

Porém, se o conhecimento não é bem distribuído à nação, a deficiência criativa já prevista não serve de justificativa para não-adoção de novos termos, uma vez que o país visa a adentrar, por opção própria, à chamada era do Informacionismo. E se o povo não tem acesso a essa nova era, o trabalho de criação é, então, repassado à elite, de modo que, assim como já o fez a Igreja em outros tempos, assegurava-se a hegemonia dessa pequena massa aristocrática restringindo-se a cultura popular frente aos benefícios dessas novas tecnologias - note-se, através do exemplo, que, ainda hoje, a elite brasileira é especialista em copiar.

Desse modo, o povo cria suas palavras a partir da sua cultura, e se a nossa classe média consumista, que até na cidade maravilhosa tenta imitar seu sonho "beverlyriano" de consumo, age no distanciamento entre a cultura das massas, não é de se estranhar, aliás deve-se até convir que a nossa língua seja dominada pelo plágio e que alcunha do país seja a mesma das madames "empoodlesadas" com cabelos de ouro: o Brasil emergente. Onde aos passíveis de indignação, o popular replica: - That's the "american way of life", mano.

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