Fabbio Cortez |
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Compreendendo de uma vez por todas o Hino Nacional Brasileiro
(Fabbio Cortez)
Introdução.:
O Hino Nacional parece ser um desafio para a maior parte de nosso povo. Pelo
que se percebe, poucas pessoas o compreendem, haja vista as inversões
de termos oracionais e algumas palavras em desuso. Acabamos, por causa disso
- quando encontramos oportunidade de fazê-lo - cantando-o mecanicamente.
Um trá-lá-lá irrefletido e frouxo; puxa, falta de civismo!
Portanto, mesmo sabendo haver outros trabalhos do tipo, resolvi despretensiosamente
também escarafunchar a letra da obra e, após exame algo criterioso,
pequena investigação histórica e desdobramento dos versos,
disseminar, de modo mais sucinto e claro possível, as conclusões
a que cheguei.
Meu interesse estrito é o de tentar contribuir, ainda que de forma mínima,
para que não venha totalmente à ruína o patriotismo tão
abalado em nosso país, pois tenho desde sempre me amofinado pelo "orgulho"
momentâneo - na realidade, a meu ver, pseudopatriotismo - vindo à
tona somente em época de Copas do Mundo e eventos do tipo. Nada contra
o esporte, isso é bom e tem de ser assim mesmo, mas só ter sentimento
cívico nesses momentos, convenhamos, não é admissível.
Bem, vamos lá: para nos facilitar, separei o trabalho em três breves
passos, a saber:
1) A letra aberta, com as principais marcações a serem depois
desenvolvidas;
2) A interpretação em si; e
3) O entendimento simplificado do poema.
Espero sinceramente que, ao menos em algum ponto ou outro, o presente opúsculo
lhe seja proveitoso.
Autoria do hino.:
A música, composta em 1822, é de Francisco Manuel da Silva (Rio
de Janeiro/RJ, 1795 - Rio de Janeiro/RJ, 1865), que foi diretor musical da Capela
Real, compositor, maestro, professor, posteriormente mestre-de-capela da Imperial
Câmara, além de fundador do Conservatório do Rio de Janeiro,
atual Escola de Música da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).
Tentou-se adaptar algumas outras letras à melodia estabelecida, mas a
atual - e definitiva - , escolhida por meio de concurso em 1909, é de
Joaquim Osório Duque-Estrada (Pati do Alferes/RJ, 1870 - Rio de Janeiro/RJ,
1927), escritor, crítico literário, professor, jornalista e imortal
da Academia Brasileira de Letras (ABL).
Note que o autor da letra nasceu cinco anos depois da morte do autor da música.
O texto só foi oficializado como letra do Hino Nacional em 6 de setembro
de 1922, véspera do Centenário da Independência, por Decreto
do então presidente Epitácio Pessoa.
Primeiro passo: a letra aberta (sem versificação, mas separada
em suas estrofes originais), com as principais marcações a serem
depois desenvolvidas
I
Ouviram do Ipiranga as margens plácidas de um povo heroico
o brado retumbante, e o sol da Liberdade, em raios fúlgidos,
brilhou no céu da Pátria nesse instante.
Se o penhor dessa igualdade conseguimos conquistar com braço
forte, em teu seio, ó Liberdade, desafia o nosso peito a própria
morte!
Ó Pátria amada, idolatrada, salve! Salve!
Brasil, um sonho intenso, um raio vívido de amor e de esperança
à terra desce, se em teu formoso céu, risonho e límpido,
a imagem do Cruzeiro resplandece.
Gigante pela própria natureza, és belo, és forte, impávido
colosso, e o teu futuro espelha essa grandeza
Terra adorada, entre outras mil, és tu, Brasil, ó Pátria
amada!
Dos filhos deste solo és mãe gentil, Pátria amada,
Brasil!
II
Deitado eternamente em berço esplêndido, ao som do mar e
à luz do céu profundo, fulguras, ó Brasil, florão
da América, iluminado ao sol do Novo Mundo!
Do que a terra mais garrida, teus risonhos, lindos campos têm mais
flores; "Nossos bosques têm mais vida", "Nossa vida"
no teu seio "mais amores".
Ó Pátria amada, idolatrada, salve! Salve!
Brasil, de amor eterno seja símbolo o lábaro que
ostentas estrelado, e diga o verde-louro desta flâmula - Paz no
futuro e glória no passado.
Mas, se ergues da justiça a clava forte, verás que um filho
teu não foge à luta, nem teme, quem te adora, a própria
morte.
Terra adorada entre outras mil, és tu, Brasil, Ó Pátria
amada!
Dos filhos deste solo és mãe gentil, Pátria amada, Brasil!
Segundo passo: a interpretação.:
I
Ouviram do Ipiranga (do tupi "ypiranga", que quer dizer
"rio vermelho", riacho da cidade de São Paulo perto do qual
o então príncipe herdeiro do trono de Portugal, Dom Pedro, futuramente
D. Pedro I - primeiro imperador do Brasil - teria declarado a Independência
em 1822) as margens (observe que as margens do riacho é que ouviram
o brado) plácidas (tranquilas) de um povo heroico (atualmente
sem o sinal agudo) o brado retumbante (grito muito forte que chega
a fazer eco) e o sol da Liberdade (o sol aqui - com letra minúscula
- não é o astro e sim a força luminosa nascida da Liberdade
personificada, o esclarecimento dela emanado naquele momento importante)
em raios fúlgidos (cintilantes), brilhou no céu
da Pátria ("pátria" invoca o tempo ido - a
história - e, necessariamente, os antepassados, e a terra natal ou adotiva
de alguém que tenha vínculos estritos de afeição,
de cultura e valores locais; diferentemente de "nação",
que tem a ver com nascimento, de onde se vem, a nacionalidade, quer dizer, tudo
o que é ligado jurídica e politicamente ao Estado (União)
nesse instante.
(Para melhor entendimento: As margens tranquilas do riacho Ipiranga
ouviram o grito forte de um povo heroico e o sol da Liberdade, em raios cintilantes,
brilhou no céu de nossa Pátria nesse momento.)
Se o penhor (se a garantia, penhora) dessa igualdade conseguimos
conquistar com braço forte (muitos cantam erradamente "braços
fortes"), em teu seio (em teu teu coração),
ó Liberdade, desafia o nosso peito a própria morte! Ó Pátria
amada, idolatrada (pela qual se transborda de amor), Salve! Salve!
(Damos-lhe "Vivas!")
(Para melhor entendimento: O nosso peito desafia a própria morte,
ó Liberdade personificada, dentro de teu próprio coração,
se conseguimos conquistar a garantia dessa igualdade com firmeza! Ó
Pátria amada, pela qual transbordamos de amor, damos "Vivas"
a ti!)
Brasil, um sonho intenso (às vezes há titubeação
devido à dúvida entre este trecho e "de amor eterno"
da 2ª parte), um raio vívido (destacado, bem visualizado,
nítido) de amor e de esperança à terra desce, se em
teu formoso céu, risonho e límpido (sem nehuma nuvem),
a imagem do Cruzeiro (do Sul) resplandece (brilha intensamente).
(Para melhor entendimento: Um sonho intenso, meu Brasil, um raio nítido
de amor e de esperança desce à terra, se a imagem da constelação
"Cruzeiro do Sul" brilha intensamente em teu formoso, risonho e
limpo céu.)
Gigante pela própria natureza, és belo, és forte, impávido
(corajoso, destemido) colosso (outra vez o sentido de "gigante",
corroborando o primeiro), e o teu futuro espelha (muitos cantam
erradamente "espelha" com o timbre do segundo "e" aberto:
/espélha/ - mas o correto é fechar o "e": /espêlha/)
essa grandeza. Terra adorada, entre outras mil, és tu, Brasil, ó
Pátria amada! Dos filhos deste solo és mãe gentil (mãe
defensora dos filhos e generosa com eles, como qualquer boa mãe),
Pátria amada, Brasil!
(Para melhor entendimento: Gigante destemido, pela própria natureza
és belo e forte e o teu futuro mostra essa grandeza. Entre outras mil
terras, tu és, meu Brasil, ó Pátria amada, a mãe
generosa dos filhos deste solo. )
II
Deitado eternamente em berço esplêndido (aqui não
significa um Brasil "preguiçoso", que descansa para sempre
- como querem maldosa e levianamente interpretar alguns, mas sim um Brasil estabelecido
num solo maravilhoso, extenso e riquíssimo, com recursos naturais intermináveis.
Só pode ser essa a intenção de Duque-Estrada), ao som
do mar e à luz do céu profundo ("profundo" aqui no
sentido de "sem fim", eterno, inimaginável), fulguras
(brilhas), ó Brasil, florão (ornato, enfeite
de ouro e/ou pedras preciosas em forma de flor) da América, iluminado
ao sol (luz solar) do Novo Mundo! (o continente americano;
era como, às vezes, os europeus denominavam a América quando de
sua descoberta, que era novo continente em relação ao "velho
mundo"(Europa), assim como à África e à Ásia.)
(Para melhor entendimento: Ó meu Brasil, rico ornato da América,
tu brilhas iluminado à luz solar do jovem continente, estabelecido
para sempre neste solo extenso e rico ao som do mar que dominas e à
luz dum céu inigualável. )
Do que a terra mais garrida (vistosa, contente) teus risonhos,
lindos campos têm mais flores; "nossos bosques têm mais vida",
"nossa vida" no (muitos cantam erradamente "em")
teu seio "mais amores" (obs.: os termos entre aspas são
partes do poema "Canção do Exílio", de Gonçalves
Dias na obra "Primeiros cantos"- 1847). Ó Pátria
amada, idolatrada, Salve! Salve! Brasil, de amor eterno (às
vezes há titubeação devido à dúvida entre
este trecho e "um sonho intenso" da 1ª parte) seja símbolo
o lábaro (bandeira, estandarte) que ostentas (exibes
com orgulho) estrelado, e diga o verde-louro (obviamente as cores
verde e amarela da bandeira, símbolizando as florestas e matas e o ouro,
as riquezas minerais) desta flâmula (também: bandeira
ou estandarte - simples referência ao termo anterior): Paz no futuro
e glória no passado (glória estabelecida, histórica,
e anseio pela paz futura).
(Para melhor entendimento: Brasil, teus risonhos e lindos campos têm
mais flores do que a terra mais vistosa, assim como nosso bosques têm
mais vida e nossa vida em teu coração tem mais amores que qualquer
outra terra. Ó Pátria amada, pela qual transbordamos de amor,
damos "Vivas" a ti! Brasil, que a bandeir estrelada que tu exibes
com orgulho seja símbolo de amor eterno e suas cores verde e amarela
digam "Glória estabelecida e anseio pela Paz futura".)
Mas, se ergues (para a luta) da justiça a clava (arma
usada para bater nos antigos combates homem a homem - espécie de porrete)
forte, verás que um filho teu não foge à luta, nem teme,
quem te adora, a própria morte. Terra adorada entre outras mil, és
tu, Brasil, ó Pátria amada! dos filhos deste solo és mãe
gentil, Pátria amada, Brasil!
(Para melhor entendimento: Mas se para a guerra tu ergues a clava forte
da justiça, verás que um filho teu não foge à
luta nem quem te adora temea própria morte. Entre outras mil terras,
tu és, meu Brasil, ó Pátria amada, a mãe generosa
dos filhos deste solo. )
Terceiro passo, enfim: o entendimento simplificado da letra, em versão
livre, mantendo-se a separação das estrofes originais
I
As margens tranquilas do riacho Ipiranga ouviram o grito forte de um povo heroico
e o sol da Liberdade, em raios cintilantes, brilhou no céu de nossa Pátria
naquele momento.
Contigo, ó Liberdade, o nosso peito desafia a própria morte se
conseguimos conquistar a garantia dessa igualdade com firmeza!
Ó Pátria amada, por quem transbordamos de amor, damos "Vivas"
a ti!
Meu Brasil, um sonho intenso, um raio nítido de amor e de esperança
desce à terra se a imagem da constelação "Cruzeiro
do Sul" brilha intensamente em teu céu formoso, risonho e claro.
Gigante corajoso, pela própria natureza és belo e forte, e no
futuro será notória essa grandeza.
Entre outras mil terras, tu és adorada, ó Pátria amada,
meu Brasil!
Tu és, Pátria amada, a mãe generosa dos filhos deste solo.
II
Ó meu Brasil, rico ornato da América, tu brilhas iluminado à
luz solar deste jovem continente, estabelecido para sempre neste solo extenso
e rico ao som do mar que dominas e à luz dum céu inigualável.
Brasil, teus risonhos e lindos campos têm mais flores do que a terra mais
vistosa, assim como nossos bosques têm mais vida e nossa vida em teu coração
tem mais amores que qualquer outra terra.
Ó Pátria amada, por quem transbordamos de amor, damos "Vivas"
a ti!
Brasil, que a bandeira estrelada que tu exibes com orgulho seja símbolo
de amor eterno e suas cores verde e amarela digam "Temos Glória
no passado e ansiamos pela Paz futura".
Mas se para a guerra tu ergues a arma forte da justiça, verás
que um filho teu não foge à luta e quem te adora não teme
nem mesmo a própria morte.
Entre outras mil terras, tu és adorada, ó Pátria amada,
meu Brasil!
Tu és, Pátria amada, a mãe generosa dos filhos deste solo.
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