A Garganta da Serpente
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Manifesto Ingênuo

(Artur da Távola)

A poesia começa quando o poeta pensa que acabou o poema.

O poema não é a poesia. É somente um dos seus condutores, talvez até o mais aparelhado.

Toda poesia que cede ao poema frustra-se.

Todo poema que cede ao verso, perturba-se.

Todo verso que cede à beleza arrisca-se.

Toda beleza que domine o poeta ameaça-o de não alcançar a poesia.

O poema precisa ser escravo da poesia, Deve aviltar-se, ser volúvel, hipócrita ou solidário mas corajoso o suficiente para compreender e aceitar o seu lugar de coadjuvante.

Há poetas que começam e acabam seus versos no poema e jamais atingem a poesia mesmo utilizando-se da melhor inspiração e de refinada linguagem.

Poesia, poema, verso e poeta são ao mesmo tempo concomitantes, contraditórios e conflituosos. Inimigos íntimos que se amam.

A poesia é soberana. O poema e o verso, invejosos, ambicionam o lugar dela. O poeta é um ser carente, aturdido e lindo, o único com permissão de levar o verso, o poema e a beleza para o julgamento da poesia. Esta, exigente, quase sempre reprova os vários intentos do poeta embora jamais o proíba de dar luz ao poema. A poesia sabe que mesmo quando não alcançada, vislumbres do que é podem estar presentes no poema, em alguns ou muitos; vemos ou nos delírios do poeta. Por isso só interfere no seu trabalho para disparar a inspiração.

A poesia é deusa. Verso e poema são anjos: intermediários entre o território superior e sagrado da poesia; entidades de grande valor transitivo. Jamais verdades em si mesmas.

O poeta é o herói mitológico. Nasce do casamento de uma deusa (a poesia), com um mortal (o poema). É bem-vindo, porque ajuda a quase impossível compreensão do que é a poesia. É um ser alado e bendito, amaldiçoado pela dúvida, cujo afã é o verso e a finalidade o poema. Alça-se à procura da deusa-poesia. Esta, somente em alguns casos e por especial concessão olímpica se deixa alcançar desde que o poeta não se embebede com o verso, com o poema ou consigo mesmo, sobretudo se for talentoso.

Poema e verso jamais podem se arrogar a pretensão de representar com exclusividade a poesia. São meros condutores que ao se suporem representantes da poesia são por ela punidos.

A poesia é tão superior que nem da beleza precisa. Esta, em geral a disfarça ou atenua. Por mais bem que faça - e faz - a beleza é a ilusão da poesia. Só vale quando se serve do poema para tentar atingir a poesia. Esta só precisa de som, ritmo e palavra por viver mais próxima da música que do discurso.

Não é o poeta que escolhe a poesia. Esta o escolhe sem lhe fornecer, jamais, poderes incondicionais sobre o poema e quase sempre lhe negando a precisão do verso; às vezes até embebedando-o com notáveis descobertas no idioma. E quando, por ser superior, humilha, logo depois mostra-se disponível tanto melhor quanto mais fácil e desfrutável. Esconde-se onde se revela chegando às vezes à humildade de necessitar do poema a quem em seguida desdenha e escarnece.

A única liberdade possível ao poeta é a de buscar a poesia.

Ela quase sempre está onde o poema a oculta ao mesmo tempo em que a proclama através do recurso da beleza, para gáudio do poeta e o aplauso das multidões necessitadas de ilusão.

(01/12/2000)

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