Artur da Távola |
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Boa leitura é torresmo
(Artur da Távola)
Um texto bem escrito, leio lentamente. Explico: Por hábito, leio muito
mais rápido do que devera e com sofreguidão. Por isso, preciso,
às vezes, ler várias vezes. A pressa é inimiga da velocidade,
já reparou?
Já o que leio com seriedade ou emoção, preciso retirar
do computador em cópia impressa e deixar o texto sobre a mesa para consultas
até que em determinado momento capturo-lhe o sumo. Sinto imediata felicidade,
indizível!
Estranho, não? Mas é assim. O hábito de ler, sempre e sempre
e muita coisa, habituou-me a essa disjuntiva: o que preciso reter, compreender
em profundidade, sentir, é devagar, a saborear e respeitar o texto, assim
como antes de ter o colesterol alto eu roia, felizardo, a delícia de
um pedaço de torresmo torradinho.
Já a leitura utilitária, essa para informar-me ou tomar conhecimento
de coisas, habituei-me a fazê-la veloz e injustamente de modo apenas semi-interessado.
Assim também me comporto em palestras, reuniões etc. Para um dispersivo
como eu, a medida do interesse por qualquer coisa ligada à palavra consiste
em meu pensamento não voar. Ele é um passarinho quando abrem a
porta da gaiola, se o que escuto é redundante, grosseiro e desinteressante
Por isso, tanto demorei em dar-lhe uma resposta sobre o prefácio solicitado.
Vou ler seu livro a meu modo, devagar, porém não escreverei o
prefácio. Primeiro, por estar certo de que prefácio só
vale muito tempo depois que o autor morre, como análise de sua obra já
sedimentada. Segundo, por acreditar, sinceramente, que livro algum precisa de
prefácio. Sim, sim, cada livro é um mistério. Não
há por que aparecer um "entendido" antes do escritor para tecer-lhe
loas ou dizer-nos o que vamos ler. Deveria ser proibido um intelectual, real
ou pseudo, avançar voraz em nossa liberdade de leitura. Um livro vale
pelo que é e não pelo que se diz a seu respeito. Sempre. Não
posso ler por alto e escrever algumas palavras de circunstância. Só
depois de saborear o torresmo. Mas sei que seu editor não esperará.
Desculpe, mas a lealdade impõe-me dizer o que ora lhe digo, ao despedir-me
e dar-lhe os parabéns.
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