A Garganta da Serpente
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Você lê para seu filho?

(Artur da Távola)

Releio velhos papéis e encontro antigo boletim da Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil. Lá, leio interessantérrimo texto do escritor japonês Shigeo Watanabe, sobre maravilhas operadas pelo livro na infância:

"Em criança eu ouvia canções e cantigas de ninar na quentura macia do colo de minha mãe e lendas de heróis e aventuras agarrado nos braços fortes de meu pai. E quando eu queria escutar um conto popular, sempre havia um avô ou avó prontos para atender ao meu pedido. Na escola primária, tive um professor que, nos dias de chuva, nos dizia para deixar de lado os livros didáticos. Ele puxava um livrinho do bolso e lia para nós lendas exóticas da mitologia grega. As histórias que ouvimos na infância ficam conosco pelo resto da vida, ligadas profundamente à lembrança das pessoas que nos contaram.

Para mim, histórias sempre foram muito importantes: me deram paz de espírito, ampliaram meus horizontes, me dotaram de delicadeza e da capacidade de suportar a solidão, alimentaram a força que traz coragem e fibra. Quando constituí minha família, minha mulher e eu passamos esta extraordinária experiência para nossas crianças. Ler para eles as histórias preferidas foi fantasticamente feliz e inesquecível.

Para isso, é claro recorremos aos livros. Através dos livros lidos em conjunto, encontramos amigos comuns, descobrimos novos reinos da imaginação e viajamos pelo mundo todo. Os livros partilhados em família são como o lar dos corações, o lugar onde inauguramos nossa vida espiritual. Os laços que os livros criam entre pais e filhos são muito fortes.

Acredito firmemente no poder dos livros. Eles registram para sempre as histórias que as pessoas inventam, muitas vezes com ilustrações, numa forma simples e acessível a todos. Podem ser lidos a qualquer hora em qualquer lugar. Os livros unem corações e mentes transcendendo tempo, espaço, língua e cultura. Ler é um ato solitário e ao mesmo tempo partilhado por todas as pessoas.

Se todas as crianças do mundo pudessem aprender a ler e se cada pessoa tivesse pelo menos um livro, com certeza as guerras e conflitos que afligem o mundo diminuiriam radicalmente. Todo adulto que se lembra da sua infância sabe o que era sentir-se sozinho. E nós lembramos que o que nos salvava da angústia e da solidão e nos dava esperanças eram os livros e as histórias. Podemos constatar isso de forma muito clara nos relatos obtidos em campos de refugiados de guerra. Depois da comida, são os livros que devolvem mais rapidamente o sorriso ao rosto das crianças. Esses sorrisos nos dizem com toda a certeza: bons livros infantis podem ajudar a pavimentar o caminho da paz". Shigeo Watanabe.

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