A Garganta da Serpente
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Quem escreve

(Artur da Távola)

Jovem estudante consulta-me sobre seus escritos. Dou-lhe esta resposta:

Você tem vocação para escrever? Então não consulte ninguém por ora. Leia. Leia. Leia. Escreva em solidão, dê curso ao fluxo interior. A correção virá depois. A gente começa a escrever para exorcizar os próprios fantasmas. Só depois descobre a literatura. Mas em uma etapa não há a outra. Não se apresse. A pressa é inimiga da velocidade e a angústia é a matéria prima do escritor. Inclusive a angústia sobre o próprio talento. Perdê-la é secar a fonte. Mantê-la, incomoda mas impulsiona. Prossiga. E deixe a etapa crítica para depois.

Depois de o texto escrito dormir, acordá-lo. Faça-o, porém, lentamente. É deixá-lo espreguiçar-se e só então, pedindo-lhe licença, começar a correção. Várias vezes. Vários dias, se possível. Anos será melhor.

Escritor é excretor. Excreta o texto. Depois deve ser leitor implacável. O primeiro movimento vai do excretor para o papel. Depois deve provir papel para o leitor. Aqui, excretor e leitor são a mesma pessoa: o escritor. Este é a síntese da briga dos dois. Nessa etapa, deve-se deixar o leitor, implacável, vencer o escritor. E ouvir as críticas de si mesmo como leitor para só depois voltar a ser escritor no momento de aprimorar o texto. Por isso ler os outros, ler, ler, ler é fundamental. Só quem sabe ler (os textos próprios e os alheios) saberá escrever. Isso se conseguir escrever sem o fazer como os escritores a quem admira.

Em suma: escrever é difícil, sacrificado, exige anos. Se depois de tudo isso (e das dores nas costas que a posição acarreta) alguém ainda gostar de escrever, então sim: após muitos anos será um escritor.

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