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Artur da Távola
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Escrever, essa agonia
(Artur da Távola)

A um jovem escritor que pede minha opinião sobre seu texto numa peça teatral, dei (e dou a vocês) a seguinte opinião: não se preocupar demais com a opinião alheia. Quem vive de escrever ainda não é um escritor. Mas quem não pode viver sem escrever, este sim é um escritor. Examine-se dentro desse critério e lembre-se de que a angústia sobre os próprios textos é a matéria prima do escritor. Escrever é uma prisão que liberta e um sofrimento que alivia.

Há pessoas que escrevem sem se preocupar com o texto. São as mais felizes. E há verdadeiros torturados. Tocam e retocam dezenas de vezes. E há os que chegam a escrever tudo de novo, várias vezes, como aconselhava Flaubert.

Li certa vez uma deliciosa confissão de Oscar Wilde. Diz com perfeição o que se passa de angústia na cabeça de um escritor e como são erráticas e fugidias as palavras às quais o poeta Thiago de Mello chamou com perfeição de "o pântano enganoso das bocas ". Mas disse o Oscar Wilde, num desabafo:

"Passei a manhã debruçado sobre um poema. Tirei-lhe uma vírgula. Que à tarde, aflito, repus"....

Trata-se da tortura da forma e a busca da precisão para o que se quer dizer, o que quase nunca é obtido. Isso se dá porque a gente pensa como fala e não como escreve. Transferir o pensamento de como se fala para a escrita, eis o segredo, a tarefa, a dificuldade. O texto escrito tem dinâmica própria. E original.

Lembro-me que quando trabalhei perto do saudoso e amigo João Saldanha, o miserável chegava na redação, colocava o papel na máquina, disparava que nem uma metralhadora, puxava o papel, mal e mal conferia, e entregava a matéria. Bandido! E o texto saia forte e bom. Já eu, jamais consegui o mesmo. O texto me tortura. Quantas vezes o ler, tantas vezes vou mudá-lo. A gente descobre lentamente as imperfeições, expressões que não são sonoras, frases com palavras demais. Até hoje sou assim e olhem que escrevo regularmente em jornal desde 1959 embora em 1957 e 1958 já escrevesse para a Rádio MEC, textos sobre música e me recordo que nesse tempo não batia à máquina o que enlouquecia as datilógrafas da rádio, tanto que eu rabiscava o escrito, apagava, escrevia em cima, tudo cheio de setas ininteligíveis até para mim, o autor, o que as desesperava, com razão... Agora, no tempo do computador há a vantagem de poder mexer à vontade sem rabiscar tudo. Ufa! São quase cinqüenta anos, uma baita experiência, e estou longe de dominar o texto. Ele ainda e cada vez mais me faz capitular, comanda, autoritário, exigente, imperador, diante do qual curvo-me reverente.

Por isso meu bom e jovem leitor, não se preocupe em demasia com o seu texto: escreva, escreva, escreva, torture-se na busca da melhor forma pois é como eu lhe disse acima. A angústia por causa da forma e o conteúdo do que escrevemos é a matéria prima do escritor. Salve ela. Eis uma tortura solitária da qual ninguém consegue escapar...

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