A Garganta da Serpente
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A aventura de Joyce

(Ana Guimarães)

De James Joyce já se disse quase tudo, certamente o principal: não só revolucionou o escrever na língua inglesa, como foi um verdadeiro divisor de águas em toda a literatura. De qualquer forma, escreveu sabendo como deixar sua marca no mundo: caminhando, sem retrocessos, em seu labirinto particular. Isso posto, vamos agora dialogar com seus escritos, embarcar nessa aventura.

Em Dublinenses – que é talvez por onde se deva fazer a aproximação à sua obra –, proibido anos pela censura por conter alusões muito diretas a pessoas conhecidas, ele explorou o despertar da consciência vindo de fora, fazendo um retrato da vida pública da então pequena Dublin. O tema central, unificador é o da paralisia, ou de um viver amortecido, e a possibilidade de fugir disso, entretanto, sem sucesso. Seus contos são inconclusivos, deixando-nos em suspense, e, mesmo frustrados, com gosto de quero mais, a ponto de Nora, sua mulher e musa, ter dito após a leitura de um deles: “Esse homem não sabe como terminar uma história”, principiando com isso a fornecer ao nonsense de Joyce o contraponto do commonsense típico dela, que tanto o seduzira.

Em Retrato do artista quando jovem, autobiográfico, registrando a gradativa consciência do autor em seu próprio destino e as rupturas com tudo para se afirmar como intelectual, suas dificuldades e contradições, começamos a ver surgir a técnica do monólogo interior ou algo mais até então inédito: uma ausência de interlocutor, a súbita e não anunciada passagem da terceira para a primeira pessoa no discurso, sem recursos tais como “disse consigo mesmo”, “falou com seus botões”, ou simplesmente “pensou”. Uma espécie de terceira dimensão literária paralela à vida, uma extensão dela, a falência da objetividade soberana que separava o narrador do resto. Uma coincidência entre tempo de ação, tempo de narração e ainda tempo de construção de personagens, o que resultou num realismo exacerbado.

Outra característica sua: dotava o homem urbano, sem importância de atos heróicos. Pensava-se até que ele estivesse escrevendo sátiras, de outro modo como justificar seu interesse pelo banal, pelo dia a dia da classe média baixa? Pelas ações mais simples do cotidiano, anúncios periódicos, funções fisiológicas elementares como defecar, trivialidades alçadas a categoria de excepcionais? O extraordinário no ordinário o encantava. Uma curiosidade: o título de Música de Câmara, uma coleção de trinta e seis canções de um apaixonado tentando penetrar na câmara da amada, teria sido inspirado por um acontecimento prosaico: o ruído no urinol (chamber pot), sendo utilizado pela dona da casa, enquanto seus poemas eram recitados numa reunião social. Anos mais tarde, ele viria a se referir jocosamente ao livro como shamebred music (música gerada na vergonha, ou música vexaminosa).

Uma questão crucial: a do sentido, sua suspensão e seu deslizamento no discurso. Suas famosas epifanias (nome tomado de empréstimo à liturgia) que ocupam um lugar singular em sua obra – verdadeiros buracos negros – são resíduos, restos, anotações guardadas ao longo dos anos, reelaboradas posteriormente. Manifestações súbitas, frases freqüentemente interrompidas, fragmentos de diálogos, nos diz ele: ali onde o sentido não alcança algo desperta do sem sentido, revertendo, paradoxalmente, com o seu esvaziamento, num transbordamento de sentido. Testemunhas do indizível. Revelação das qualidades intrínsecas do objeto, quando ele é despido de sua aparência revelando sua coisidade, sem um alinhavo sequer de significação. Uma caixa de Pandora, como disse Barthes em O Grau Zero da Escrita, de onde saem voando todas as virtualidades da linguagem; o estabelecimento de um discurso cheio de ausências. Segundo Joyce, uma restauração do verbo em sua pureza, antes de ser aviltado por seu uso para fins utilitários, ou seja, de comunicação. E a claritas (de São Tomás de Aquino) corresponderia a iluminação, a brusca revelação, o instante da inspiração, a centelha (divina?) sobre a qual Joyce funda a certeza de sua vocação.

A verdade artística era o que valia para ele, essa paixão ele quer partilhar conosco. Nunca escreveu para agradar, não deseja nos conquistar, mas sim que o conquistemos: desnuda o homem de qualidades respeitáveis e depois nos convida a simpatizar com ele. Se a heresia foi a maneira primeira que encontrou para se rebelar contra uma educação católica repressora e contra ainda um esmagamento cultural e político pela bota inglesa, numa clara alusão aos mitos mostrava que há algo de exílio de que o ser humano necessita para sua fundação, daí vislumbrá-lo como solução, tamanho o torpor intelectual que o cercava. Muito já se falou sobre Bloom estar referido ao Ulysses de Homero, e Stephen ao de Dante, bipartido, como o sujeito. Assim ele se nos apresenta: quando fica quer partir, quando parte quer voltar, mas sempre ancorado, referenciado ao pai, à família, à religião, à política e – last but not least – ao país, embora mais identificado com Stephen, o herói (era assim que ele se via), aquele que precisa se distanciar, se afastar de tudo... a fim de moldar, na forja da minha alma, a consciência ainda não criada da minha raça, trecho final de Retrato do Artista. Por outro lado, em Exilados, peça teatral, ele exprime a sensação de contínua exclusão, ser exilado em seu próprio país, um exílio espiritual. (Esse texto, datado de 1918, expõe notas ao final que fornecem dados explicativos sobre a concepção literária do monólogo interior, então incipiente).

Um dia de nuvens listradas vindas do mar... A frase, o dia e a cena harmonizavam-se num coro. Palavras. Seriam suas cores?... Não... Seria, pois, que ele amava apenas o erguer e o tombar rítmico das palavras mais do que a associação delas em legendas e em cores? (Retrato do artista) Esses gozos da letra associados à publicação fazem de Joyce um LOM (homofonia de l’homme), não só como ele disse, através dos ardentes e ousados carinhos de Nora (que podem ser conferidos em Cartas a Nora, um pequeno volume que mostra o grande, o absoluto amor por ela, sua sexualidade pujante, incomum: Eu me pergunto se haverá alguma loucura em mim. Ou será amor, loucura?). Ele se torna homem pela via da escritura, ou seja, da escrita com estilo, artífice obstinado das palavras que era, responsável por seu savoir-faire. O poeta, o escritor, o artista, não espera pelo analista: ele obra, ele se obra. Se em Ulysses ele implodiu a estrutura tradicional do romance, em Finnegan’s Wake (seu biógrafo, Richard Ellman diz que aí foi seu êxtase) ele explode de vez, para recomeçar, levando a experiência lingüística ao ponto limítrofe, cada vez mais marcada pela fragmentação e recomposição das palavras, produzindo onomatopéias, polissemias e associações (culminando nas palavras de cem letras que recobrissem um sentido absoluto), e sugerindo enigmas que manterão todos ocupados por séculos. Não enigmas para serem resolvidos, penso eu, mas para expor esses enigmas que nos constituem. Por que Joyce interessou tanto a Lacan? Porque ele testemunha como ninguém a estrutura do parlêtre, aquilo que define nosso ser por uma referência primeira palavra

Toda obra de arte seria um saber que se desorienta, resguardando sem pudor o paradoxo, mas que desenha sua borda: ela é litoral, ela borda sua margem. Fora, portanto, dos discursos dos que a querem explicada. Freud e Lacan já declinaram de psicanalisá-la, de “resolvê-la”, já disseram ser isso senão impossível irrelevante, mesmo porque uma mensagem decifrada pode, ainda assim, permanecer um enigma. Isso me reporta à charada que Stephen propõe logo no início de Ulysses: O galo cucuricou/ No céu o azul se espraiou:/ Celestes sinos de bronze /Bimbalaram as onze./ Tempo para esta pobre alma/ Ter do paraíso a calma. O que é o que é? A raposa enterrando a avó debaixo de um avezinho.

Sim, ele falou no limite da razão, de dentro desse lugar. Talvez Joyce tenha se utilizado da escritura para fazer uma “compensação” lá onde havia um deficit (a foraclusão do Nome do pai, que habitualmente deixa o sujeito imerso na estrutura da psicose). Mas nós, seus leitores privilegiados, é que terminamos por nos servir dessa abertura de sentido, desse enigma que ele nos coloca para novas interpretações. Não é isso o que faz uma verdadeira obra de arte? Servir como analista e não para ser analisada?

Joyce, por sua vez, também se interessou pela psicanálise, demonstrando conhecer sua técnica de associação livre: Há pecados ou (chamemo-lhes como o mundo lhes chama) más lembranças que estão escondidas pelos homens nos mais escuros lugares do coração, mas que residem aí e esperam. Ele pode sofrer que sua memória se faça escusa, deixá-las ser como se não houveram sido e tudo a ponto de persuadir-se de que não foram ou ao menos foram diferentemente. Ainda assim uma palavra aleatória as chamará à tona de chofre e elas se levantarão para confrontá-lo nas mais várias circunstâncias, uma visão ou um sonho... (Ulysses, pg 544).

Nessa aventura da linguagem que poucos ousam enfrentar, ele navegou por sete anos pelo dia de Ulysses (tido como um labirinto com poucas saídas), e por dezesseis pela noite de Finnegan’s, um labirinto onde a saída era a entrada e vice-versa, em circularidade, cheio de palavras-valise e cifras cabalísticas, considerado o mais indecifrável dos textos que um escritor já produziu.

Dizem que ele retratou sua cidade natal com tanta exatidão que ela poderia ser reconstituída só graças a seus livros, caso fosse totalmente queimada num incêndio. Obrigado, dublinenses, obrigado Dublin, a vocês devemos o legado de Joyce.

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