A Garganta da Serpente
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A leitura como objeto do olhar

(Almandrade)

Pouco se falou da obra de Wlademir Dias-Pino, entre a literatura e as artes visuais, estranho poeta concreto nos anos 50, desconfiado e crítico com relação à objetividade construtiva. Existe um problema central na produção gráfica e poética deste artista: a didática da leitura, uma didática não linear contra o mito da retina. Poeta, pintor, programador visual, um dos inventores da poesia concreta e do poema processo, Wlademir nasceu no Rio de Janeiro em 1927, onde vive atualmente depois de residir por um longo período em Cuiabá. Publica seu primeiro livro em 1940 “A Fome dos Lados” (edições Cidade Verde, Cuiabá Mato Grosso). Poeta da palavra que já pensava a linguagem como problema central da poesia.

“Aqui está a mancha do assassinado
livre agora era bom e é livre
sua mancha horizontal e leve
como são leves as coisas horizontais.”

“A Máquina Que Ri”, “A Máquina ou A Coisa em Si”, “Os Corcundas”, livros editados em Cuiabá nas décadas de 1940 e 1950 que mostram um poeta desconfiado do progresso tecnológico, rebelde com a semântica, introduzindo na poesia um vocabulário estranho e perturbador.

“Teus olhos têm o brilho de flecha
- Um eco polido de rolar
Nossa ânsia nos une como sombras.”

“O homem examina seu tédio
como se fosse um dedo.”

“Que pluma esses dentes
de engrenagem até ao tédio
tamanho mapa, mapa de ferro
ruminando que raiva igual
toda andaime logo de febre
e também aço outras coisas
quase humana, quase hélice.”

A partir de 1956, depois de participar da exposição de lançamento do concretismo no Brasil, no Museu de Arte Moderna de São Paulo, o trabalho poético de Wlademir assume a radicalmente o visual como estrutura do poema, “A Ave”, um livro objeto/poema foi um novo desdobramento na composição e na visualidade da poesia concreta, superando a própria poesia visual. Leitura do ponto de vista da poesia visual pode ser o método mais fácil de consumir o trabalho de Wlademir e disfarçar o enigma indecifrável fora do saber do olhar. São imagens, espaços que se indagam, construídos como sabedoria do olhar e da geometria para a ginástica da reflexão e emoção do olhar. Desenhos silenciosos, traçados com um repertório construtivo, utilizado de forma crítica e sarcástica, buscando tensionar a higiênica visualidade concreta com outras geometrias, como a escrita indígena.

“Além do fluxo de informações próprio à época de sua formação, o repertorio de Wlademir Dias Pino recebeu elementos através do contato peculiar e significativo com fatos e com um conjunto de repertórios, o que contribuiu para que seus trabalhos por ocasião da Poesia Concreta apresentassem uma universalidade resultante de uma atividade inventiva que marcaram as particularidades de sua produção.”

(Álvaro de Sá)

Momentos de inversão em plena euforia do otimismo da arte e da poesia concreta. Um poeta da dessacralização do poético com o culto à máquina, mas uma máquina rebelde, uma “máquina que rir” e não produz. A pintura de Wlademir é constituída de sintágmas visuais contraditórios, relacionados ironicamente, na corda bamba entre o rigor e o humor. Espaços cortados e re-significados por segmentos de retas obedecendo a uma noção de economia da cor e do desenho. Entre equilíbrios e desequilíbrios, uma ambigüidade trabalhada e uma pluralidade de leituras com tendência ao excesso. O prazer de ver sem a necessidade de decifrar.

No trabalho de Wlademir existe um olhar voltado para organizar a inteligibilidade do mundo visual, como sistema de relações de saber. Questionando e re-significando espaços gráficos construídos de forma livre da ortodoxia construtiva, somados com elementos provenientes do figurativo, tratados como formas plásticas. Uma visualidade para o estranhamento do olhar. Espaços planos assimétricos, profundidade imaginável, carregados de problemas para a imaginação do olhar interior, que nos fala Merleau-Ponty, resolvê-los. São de ordem da própria trama da visualidade.

O livro foi um instrumento crítico utilizado por Wlademir, este objeto cheio de mistérios que oculta com a sedução de seus signos o processo de sua confecção. Rigorosamente programados, uma forma experimental de paginar e manipular o conteúdo gráfico, o gesto comum de virar a página, nos livros planejados por Wlademir é sempre uma surpresa e um trabalho que motiva se pensar sobre o livro como coisa produzida para ser manuseada.

“A Ave” é um livro para se pensar sobre o livro e a leitura. A perfuração, a cor, os gráficos, sugerem a idéia de uso como meio de decodificação, ironizando a utilidade do olhar e das mãos. - “Assim quando começamos “A Ave”, estávamos participando do Movimento Intensivista em Cuiabá; e muito nos preocupava o problema da colocação da palavra nos vértices (dobradiças) do espaço (o nível ou altura da palavra no suporte do papel significava a potencialidade)”, W.D.P.


O MUNDO VISUAL DE WALDEMIR DIAS-PINO

A Imagem quer sonhar seu próprio passado, recordar, recriar. Acumula informações e contradições: o novo e o arcaico. Dos traços rupestres depositados nas paredes das cavernas aos códigos virtuais da janela do computador, um mergulho na origem e no desenvolvimento da escrita. O projeto é fazer uma enciclopédia visual. O trabalho que propõe o poeta Wlademir Dias–Pino, um dos criadores da poesia concreta que comemora 50 anos em 2006, é construir uma história da imaginação da mão e do olho. Um lugar de meditar sobre a natureza das imagens apropriadas e transformadas em matéria prima para outras imagens, que oferecem ao pensamento um mundo. Wlademir, “na sua seriedade de um dos mais perspicazes pesquisadores visuais no Brasil” (Antonio Houaiss), interroga os signos visuais como sabedoria, ou seja, a utilização e organização do visual como “coisa mental”, lembrando Leonardo da Vinci.

“Precisamos compreender que a mão, assim como o olho tem seu devaneio e sua poesia.”

(Gaston Bachelard)

A mão do poeta inventa e relaciona imagens, mobiliza o pensamento de quem olha na busca de uma história, ou melhor, de uma pré-história das artes gráficas e sua poética. Uma performance da visualidade que viaja no tempo e exige de nós uma contemplação provocante. Elas são apenas o que desejam ser, imagens; mas estimulam a imaginação a ver um certo universo que habita o signo. Quem olha com atenção descobre as confidências de um “artesão” que não desconhece o raciocínio das mãos. O olhar acaba por projetar sobre o que vê: uma história, uma lenda, ao percorrer toda a superfície gráfica. Vivendo entre Cuiabá e Rio de Janeiro em 1974, Wlademir lança “A Marca e o Logotipo Brasileiros” que poderia ser o primeiro volume desta audaciosa Enciclopédia Visual. Mais do que um estudo de marcas e logotipos é um rico repertório de imagens.

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