A Garganta da Serpente
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Rapsódia de uma Historia Étnica


São Paulo: Rapsódia de uma História Étnica.

A este mote
“De outras e muitas grandezas vos poderíamos ilustrar, senhoras Amazonas, não fora persignar demasiado esta epístola; todavia, com afirmar-vos que esta é, por sem dúvida, a mais bela cidade terráquea, muito temos feito em favor destes homens de prol. Mas cair-nos-iam as faces, si ocultáramos no silêncio, uma curiosidade original deste povo. Ora sabereis que a sua riqueza de expressão intelectual é tão prodigiosa, que falam numa língua e escrevem noutra” (Mario de Andrade Macunaíma – o herói sem nenhum caráter).

Nasceu... No fundo do mato-virgem. Era frágil, mínima, quase transparente, inerte. A anciã da aldeia cerra os lábios murchos e sacode a cabeça sábia em sinal de negação: ‘Macho outra vez. Veio ao mundo de bruços. Não vinga. Sétimo filho homem de mesmo pai e mesma mãe’. Se vingasse - diz a lenda cabocla - certamente seria lobisomem. Na tristeza daquele janeiro ardente, a vasta cabana torna-se gélida por um átimo. Em plena década da tardia “Revolução Feminina” seis curumins saltam de suas redes - onde jazia a curiosidade de uns e a ansiedade de outros em relação ao nascimento do irmãozinho – um grito que ecoou por todos os paus-a-pique da cabana. Seria esse o “Grito da Independência” do qual a linda mestra da cidade falara na ocasião das matrículas escolares, semana passada? Era o Grito da Independência sim, da Revolução Feminina, também, mas principalmente, representava o Grito de uma dádiva divina (ou do deus cristão ou dos deuses pagãos, ou da magnífica sincronia religiosa nascida nesta terra) Era a mais relevante revolução para a grande e mestiça família. Grito fino, porém Forte... quase infinito. Era uma pequena cunhatã. Lábios rosados e olhos... de puro mel – será que o poeta invertera a ordem das cores e dos sabores na sua grande obra? Bem, aqui temos um doce de menina – pensam. Mistura mágica de sangue indígena e europeu. Cresceu saudável entre frutas e verduras... arcos e cipós... artes com urucum e banhos nos rios. Conversava com o Saci... foi ele quem a ensinou a ser astuta e... má. Quantas vezes a pequena cunhatã não lograra o Curupira? Só para cavalgar seu porco-espinho! Amarrava as crianças da aldeia nos troncos secos só para chamar a Cuca a fim de apavora-las. E quando via alguém se banhando no rio, chamava a Cobra Grande dizendo que aquela pessoa má, estava fazendo pipi nas águas, só para vê-la correr nua na mata. Ria tanto que até hoje é possível ouvir, nos confins da memória, o eco dessa espontaneidade inata da inocência infantil. Ah, mas quando o lado europeu da família conseguia por as mãos sobre aquela inocência toda... Não conseguia definir (em todos os seus cinco ou seis anos) o que era pior: o banho morno no tonel de madeira com buchas e bruxas, ou as rendas e babados de uma coisa desconfortável chamada “vestidinho de menina”... “As crianças na tal Europa deviam sofrer muito” - concluía. Entretanto, insuportável mesmo era o tal “sapatinho de cristal” – bom de se ouvir a história, daí a usa-los... Nem sabia ainda que era menina, como queriam que esperasse docemente por um beijo que a despertasse do sono em que o sonho real era só liberdade e cabelos ao vento? Os sapos? Imagine. Nunca que iria beijar um desses bocudos melequentos!

Pena existir no mundo o lado adulto das coisas. E esse lado adulto já não possuía condições de manter a família alimentada e unida por mais tempo. Guardaram, porém, na caixa de Pandora a Esperança para oferecerem aos filhos no momento certo, no último caso. O momento chegara. A pequena Cunhatã precisava ir à Escola. Os curumins, que desde cedo ajudavam no plantio e na colheita, na caça e na pesca já estavam atrasados em seus estudos. O lado europeu decidira. Pelo bem dos sete... anões e da branca de neve, era chegada a hora de buscar a Terra Prometida. Emprego... Estudo... Oportunidades... A enorme serpente de ferro esperava, soltando fumaça pelo nariz e aos poucos, (percebera logo nos primeiros instantes) ia engolindo as pessoas. Ah, só aceitara ir, porque era a única que sabia da verdade: aquela serpente iria leva-la direto ao Centro da Terra, onde seu antepassado Verne já havia se aventurado antes. O problema é que a serpente não devia saber ler e errou o caminho. Ou será que o gato - meio confuso - da sua prima Alice não anotou direito o endereço? Chegaram em um lugar fascinante. Luzes coloridas por todos os lados, belos animais de patas redondas que não existiam na mata, luminosos... piscavam letras do código da escrita, cabanas na vertical, pessoas lindas – deveriam ser príncipes e princesas - enfim, era um Admirável Mundo Novo. Magnífico no ocidente, magnânimo no oriente. Fabuloso... Assustador... Aterrorizante aos olhos de puro mel, longe de seu habitat. Que herói sem caráter é esse que obriga famílias inteiras a fugir da fome em terras que, sabemos,“em plantando tudo dá?” (A alma do poeta também é inata, livre... de cabelos ao vento). Havia pouca bagagem, contudo pesava como o Colossos de Rhodes. Só a caixinha de Pandora era leve e agradável embora carregasse algo coletivo da família de altíssimo valor. A pequena foi à Escola e percebeu que seus poderes mágicos não existiam mais. Aqui, o Saci vinha para castiga-la das peraltices de outrora. Riam de seu dialeto: meio Latim, meio Italiano, meio Tupi (tudo aportuguesado). Era natural que rissem (agora, digam isso a uma criança assustada!) As buzinas, os auto-falantes, os automóveis (não eram animais de patas redondas), as sirenes, enfim, esses meios legais de tortura machucavam seus ouvidos sensíveis, acostumados a ouvir o canto dos pássaros. Sentia-se como Dante percorrendo o inferno, mas tinha certeza que depois do purgatório alcançaria o Paraíso, porque como tal, tinha um excelente guia, seu anjo da guarda – dizem que o anjo da guarda dos curumins é muito bondoso, como o é Beatriz. Quando conheceu um pouco da história desse Admirável Mundo Novo, começou a perder o medo e a interessar-se mais e mais. Conheceu D. Pedro e seu Poderoso Palácio de mesmo nome. Conheceu a imensidão do Mercado Municipal, uma lindíssima cabana de nome Teatro, também Municipal. Magníficas construções na Praça chamada “da Sé” e um viaduto com nome de bebida de erva. Conheceu a agilidade permanente e constante da Avenida Paulista (à noite, então, aquilo é deslumbrante!) Conheceu o Parque do Ibirapuera (esse nome a cunhatã sabia o significado – assim como muitos outros como Anhangabaú, Itaquera, Guaianazes, Tatuapé, Itaim, Tietê e muitos outros). Foi assim que começou a estudar cada vez mais e descobriu que seus pais eram Paulistas, que nasceram e viveram suas infâncias aqui. Que sua mãe quando menina e seus avós moraram na Rua Direita, imaginem! No coração de São Paulo, terra santa da Grande Mãe. Ah! Sentia-se parte da cidade. Era uma pequena cidadã que começava a amar a Terra Prometida de seus pais. A pequena Tupinambá de lábios róseos e olhos de mel (se fosse o contrário poderia ter sido a musa que inspirou o divino poeta - ou seria um profeta divino?) bem, quando debutou em algum verão brasileiro em um 25 de janeiro, apaixonou-se... porque os sapos daqui, são mais belos do que os de lá e não se transformam em príncipes, mas em anjos – ao menos este tornou-se alado... sabe porquê? Ele era bom... bom de coração... iluminado e especial... tornou-se anjo pelos méritos próprios. São Paulo... Nestas terras foram plantados sonhos, esperanças, felicidade e dor. Pensa que isso é triste para uma cunhatã? A terra é nossa Grande Mãe, diz a cultura indígena.. É ela quem nos diz quando é hora de plantar, de colher... de crescer, de amar... de lutar, de viver! Mel puro nunca perde o brilho ou o poder de cura... assim, tendo as raízes de sua alma plantadas em terras paulistas, seu imenso amor transferiu-se a esta terra. Nossa pequena cunhatã, já não é tão pequena assim, contudo já não sabe se tem 45, 52 ou 452 anos como a sua Esplêndida São Paulo. Parabéns São Paulo desta e de tantas outras crianças, cunhatãs e curumins que possuem certa mistura mágica nas veias, que embora anônimos são seus defensores, seus filhos natos ou adotivos. São valiosos cidadãos Paulistas que conhecem seu valor e que dedicaram suas vidas ao seu constante desenvolvimento, sem esquecerem-se de sua preservação. Parabéns São Paulo pelos 450 anos de conquistas e seduções... um indígena ama a Grande Mãe sobre tudo. E esta aqui, trabalha prazerosamente incentivando os pequenos a conhecer e respeitar sua Cidade; a ter respeito e conhecimento do seu valor social, econômico, étnico, cultural e ecológico; a ter orgulho dela e principalmente a perceber a importância de cuidar dessa grandeza como se cuida das pessoas que amamos. Esse é o presente que uma anônima cunhatã pode oferecer à sua grande Mãe.. É impossível não ama-la.

Margarete Louzano
E-mail: louzanos@msn.com



Margarete Louzano

(filha do sul fascinada pela'terra prometida de seus pais')
postado em 23/1/06
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